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11 dic 2009

El Corso Triste de la calle Caracas

O Bloco Triste da Rua Caracas
Alejandro Dolina




De acordo a uma difundida lenda, o Carnaval foi alguma vez uma festa popular, com pessoas fantasiadas, música, dança, brincadeiras e blocos. Na verdade, custa acreditar em semelhante coisa. Como queira que seja, a lendária gesta já morreu. No entanto, como silenciosos quartos vazios, restaram certas datas do folhetim às que a teimosia geral insiste em atribuir a condição de carnavalesca. Estes dias são usados, não já para festejar, mas sim para refletir e sentir saudades da ausência da festa. Trata-se como se vê, de um curioso destino: passar do entusiasmo à nostalgia, da paixão à meditação, da alegria à tristeza. Muitos espíritos taciturnos se comprazem com este estado das coisas e afirmam que a farra e a liberdade de outras épocas foram apenas um passo prévio e inevitável, cujo nobre fim cumpre-se agora, no exercício da lembrança.
Os Homens Sensíveis de Flores simpatizavam em certo modo com este critério. Para eles, o Carnaval não somente servia para seduzir senhoritas nas festas, mas também para pensar na passagem do tempo.
Pode-se afirmar sem cair na mentira que esta ilustre corja de malandros jamais conseguiu entender o sentido dos Carnavais.
Manuel Mandeb pensava que as pessoas ficavam contentes em virtude de algum acontecimento que todos conheciam menos ele. Seus amigos padeciam de um desconcerto do mesmo tipo.
Isto pode explicar a estranha conduta dos Homens Sensíveis nos blocos e nos bailes.
Durante um tempo se esforçavam por se sentirem alegres: dançavam, comiam lingüiça, punham máscaras, falavam com voz fininha e molhavam as damas com lança-perfume. Depois compreendiam que era tudo inútil e então iam a outros bailes, discutiam com os garçons, olhavam as orquestas, evocavam antigos carnavais e cantavam o tango “Siga o Bloco”. Já de madrugada maldiziam o Carnaval, se estacionavam nas esquinas desoladas e caçoavam dos caminhantes que voltavam às suas casas.
Mas numa tarde de verão, Manuel Mandeb teve uma inspiração genial. Teve a idéia de organizar todos os anos o Bloco Triste da Rua Caracas.
Tratava-se de uma idéia interessante: Mandeb pensava que nos carnavais vulgares todos dissimulavam a tristeza fantasiando-se de pessoas alegres. Seu projeto consistia em adotar fantasias e atitudes melancólicas para ver se atrás delas se instalava a alegria.
“Se sob o sonoro riso do palhaço se adivinha sempre uma lágrima, é possível que encontremos um sorriso se tiramos nossas caretas de vítimas”.
Se o propósito de Mandeb foi conseguir um clima de pesar, devemos dizer que conseguiu. O Bloco Triste da Rua Caracas era francamente tenebroso.
Todas as luzes estavam apagadas. Os assistentes deambulavam como sombras fingindo toda classe de sofrimentos.
Os blocos entoavam canções trágicas e tangos de Agustín Magaldi.
As fantasias eram penosas: de condenado à morte, de noiva abandonada, de jogador expulso, de devedor hipotecário, de vendedor de livros e de intoxicado.
Como o tempo, o Bloco Triste foi-se fazendo mais ambicioso e complexo.
Jorge Allen, o poeta, começou a escrever versos carnavalescos com pretensão literária.
“Se parliamo’ do destino borom bom bom... Quem conhece seu caminho? Borom bom bom... ninguém pode contra a sorte, a última carta é a da morte borom bom bom borom bom bom”
Os rapazes tristes de outros bairros se aproximaram pouco a pouco e logo circularam carroças de folhas secas e automóveis com as janelas fechadas.
No terceiro ano, constituiu-se um júri e se realizaram concursos e torneios.
Os blocos tiravam faíscas para ver qual era o mais deprimente. Os Lonjipietros da Desilusão, dos Decrépitos do Amanhã, e Faíscas de Solidão foram as agrupações mais renomadas.
As rainhas do bloco eram belíssimas, mas inacessíveis e perversas. O prêmio anual de máscara solta sempre foi ganho pelo mesmo individuo. Referimo-nos, lógico, ao célebre ator Eladio del Prado, quem não tinha rival na técnica da caracterização.
Suas primeiras fantasias foram simples. Uma noite apareceu fantasiado de escravo persa e todos se condoíam de ver suas costas surcada de chibatadas e seu corvo envarado sob o peso de enormes correntes.
Depois, suas criações foram mais complexas. Um domingo foi ciclope e na manhã seguinte revolucionou o bairro todo procurando o olho que ele tinha tirado. Foi também mendigo escocês e as pessoas choravam ao vê-lo suportar a neve de Glascow na Rua Caracas.
Contam que Del Prado, entusiasmado com seu sucesso, resolveu continuar com suas fantasias todo o ano. Dizem que sua destreza crescia junto à sua crueldade. Uma noite de inverno, os Homens Sensíveis pularam de alegria ao ver reaparecer Tonio Berardi, o moleque que morreu em Paris. Organizaram uma grande festa, e no momento em que levantavam as taças para celebrar a sua ressurreição, Del Prado tirou o avental, lavou os joelhos, voltou a pôr cara de pessoa adulta e apareceu tal qual era. O russo Salzman esteve duas semanas de cama e Jorge Allen quase ficou gago.
O útlimo Carnaval do Bloco Triste, Eladio del Prado se fantasiou para sempre de lembrança e ninguém voltou a vê-lo no bairro do Anjo Cinzento.
A comissão organizadora do Bloco logo advertiu que a criação de Mandeb tinha interessantes possibilidades econômicas. Isto resulta um pouco surpreendente se lembramos da nula capacidade dos Homens Sensíveis para os negócios. De todas formas, é um fato que durante longos anos, os rapazes do Anjo Cinzento venderam papel picado. Empregaram a conhecida técnica que enriqueceu tantos mercaderes: na primeira jornada, as bolsinhas estavam cheias de papelzinhos brilhantes e imaculados. Quando a festa terminava, varriam o chão e voltavam a embolsar os papéis. Noite a noite, o produto ia ficando sujo e envilecia, até que na morte do Carnaval, as bolsinhas estavam cheias de terra, tampinhas de cerveja, balas a meio comer e outras porcarias. Alguns nostálgicos acreditam reconhecer ainda hoje, nos bailes de Vila del Parque, restos de papel picado primogênio que se vendia no Bloco Triste.
Para contribuir à penúria da assistência, Mandeb vendia lança-perfume cheios de lágrimas que – se acreditamos nos seus detratores – falsificava com água e sal.
Os Refutadores de Lendas, em seu caráter de Comparsa Racionalista, costumavam se aproximarem da festa da Rua Caracas para comprar briga. Todos lembram seus afinados versos: “Os Refutadores senhoras, senhores, chegam com seus ritmos e seus silogismos. Os desafiamos a expor suas ilusões e a confrontá-las com nossas refutações...”

As olímpicas razões do bloco encontravam muitas vezes contundente resposta e dentro de um clima polêmico e agudo, costumavam armar formidáveis brigas que – por certo – davam brilho e renome ao Bloco Triste.
Ano a ano, os Carnavais da Rua Caracas foram ficando mais divertidos. Naturalmente, isso provocou sua decadência.
Os Homens Sensíveis de Flores, ao observar a farra, compreendiam que o projeto inicial ia caminho ao fracasso.
A sóbria melancolia dos primeiros tempos ia cedendo lugar a sorrisos satisfeitos quando não a gargalhadas sem freio.
Ah!, - lamentavam – Carnavais eram os de antes!
E então contavam anedotas dos blocos de antigamente, austeros e silenciosos, comparando-os com a insuportável algaravia que tinham frente aos olhos.
Mas na realidade, a verdadeira essência do fracasso temos que buscá-la por outros rumos.
Como já dissemos, o que procurava Mandeb e seus amigos era um resto de alegria que devia aparecer ao tirar a máscara trágica.
E a verdade é que nunca encontraram tal coisa.
Cada vez que – com toda ilusão – abandonavam suas fantasias de atormentados, encontravam debaixo novos tormentos que, para piorar, eram reais.
Por isso, compreendendo que a felicidade não estava no Carnaval e talvez em nenhum lugar, os Homens Sensíveis dissolveram para sempre o Bloco Triste da Rua Caracas.
Hoje, quando a fama dos rapazes do Anjo Cinzento já encontrou seu túmulo nos ventos da Estação de Flores há – mesmo que poucos o adivinhem – centenas de blocos tristes. E são muito mais tristes do que o da Rua Caracas, pois sua tristeza é involuntária e seu propósito é a alegria.
Talvez chegou o momento de compreender que não nascemos para certas fanfarronadas. Que riam os brasileiros. Tenhamos, isso sim, festas e reuniões populares. Mas nao deixemos de ser quem somos. Se nossa estranha condigamo nos fez compreender o sentido adverso do mundo, agrupemo-nos para nos ajudarmos amigavelmente a suportar a adversidade.
Talvez os Carnavais de antigamente, tão sonhado pelos animadores do radio, não era mais do que isso: uma reunião de gente triste que procurava consolo.



23 nov 2009

El psicoanálisis en Flores


A psicanálise em Flores
Alejandro Dolina

A história da psicanálise no bairro de Flores é bastante curiosa. Quem conhece os Homens Sensíveis já suspeita que as teorias de Freud não foram formuladas pensando neles. E mesmo que esses varões sempre foram aventureiros e buscadores de sonhos, custa bastante imaginá-los no divã de um psicanalista.
No entanto, muitos profissionais alcançaram sucesso no bairro do Anjo Cinzento. Alguns foram consultados pelos Homens Sensíveis e até existiram escolas e correntes opostas que deram lugar a apaixonantes polêmicas.
O primeiro analista que se estabeleceu em Flores foi – conforme dizem – o doutor Mauricio D. Finkel. No inicio não foi fácil e seu consultório da Avenida Rivadavia permaneceu deserto durante meses. Os vizinhos pensavam entender que Finkel adivinhava a sorte ou abria as cartas ou talvez vendesse rifas. Com essa idéia se apresentou um dia de inverno o primeiro dos seus pacientes.
Tratava-se do poeta Jorge Allen, que procurava consolação de uma desilusão amorosa e pensou que não estava mal tentar alguma solução mágica. Finkel o fez deitar no divã e o convidou a falar. Allen contou minuciosamente que fora abandonado por certa senhorita de La Paternal, a forma em que sofria e outros detalhes menores. Transcorrido o tempo, Finkel se levantou e deu por terminada a entrevista.
- E aí? – disse Allen – faço o quê?
- Venha quinta-feira à mesma hora.
- Para quê?
- Veja, o tratamento procura que o senhor vá compreendendo seu próprio problema. A solução o senhor vai encontrar nessa mesma compreensão.
Allen voltou várias vezes. Compreendeu perfeitamente seu caso, coisa que não lhe serviu de nada: a moça de La Paternal casou-se com um consignatário de Alberti. Ao saber desta tragédia, o apaixonado anunciou a Finkel sua decisão de interromper o tratamento.
- O senhor não entende – sentenciou o analista -; o ponto é colocá-lo frente à realidade para aceitá-la e superar a sua dor.
- Não desejo superar a dor. Já perdi a mulher que eu amava. O senhor pretende me deixar também sem o sofrimento? Diga-me quanto estou lhe devendo.
Apesar deste primeiro fracasso, Finkel fez carreira.
Quando os Homens Sensíveis souberam da teoria do subconsciente, acreditaram encontrar-se frente a uma belíssima lenda.
Na praça, os Narradores de Histórias surpreendiam o auditório manifestando que todos levavam por dentro outro senhor, quem na verdade é que domina o nosso ser.
Diziam também que este senhor oculto aparecia nos piores momentos, pondo nas nossas vidas notas de luxúria, bestialidade e grosseria.
A lenda do subconsciente foi-se transformando vigorosamente e algumas de suas versões são assombrosas.
Durante muito tempo acreditavam em Flores que toda ação indecente era responsabilidade do subconsciente, ficando a salvo a inocência de quem a perpetrasse. Deste modo, os mal-educados da área justificavam seus gritos, safadezas e provocações culpando o estranho que levavam por dentro.
As pessoas decentes e retas se jactavam de não ter subconsciente e muitos pais ameaçavam seus filhos com marcar a extirpação cirúrgica do intruso responsável por suas travessuras.
Manuel Mandeb afirmou uma madrugada que ele tinha vários subconscientes, a maioria dos quais estavam contra ele.
Quase nos confins de Villa del Parque, alguns grupos de fanáticos acreditaram que o subconsciente saía da sua embalagem carnal nas noites de lua cheia para cometer toda classe de perversidades.
Seja pelo auge desta lenda, seja pelo trabalho de grupos de fedelhos procedentes do centro, o caso é que o doutor Finkel e alguns outros psicanalistas chegaram a dispor de uma regular freguesia.
Os Refutadores de Lendas não se opuseram a esta atividade, pois tinham ouvido dizer que se tratava de algo científico.
Também é verdade que não concorriam aos consultórios, coisa que é uma pena: não deve haver nada mais apaixonante do que os sonhos de um racionalista.
Com o aparecimento de novos profissionais, começaram também os diferentes focos, as heresias e as discussões. Finkel era ortodoxo: não dialogava com seus pacientes, punha-se fora de suas vistas e não lhes permitia que o olhassem. Seus inimigos afirmavam que o homem aproveitava para dormir.
Outros asseguravam que ele ia à cozinha e voltava sobre o final da sessão. E não faltavam os que pensavam que atendia duas ou mais pessoas ao mesmo tempo, dando voltinhas de inspeção entre quarto e quarto.
Outros psicanalistas preferiram enfrentar seus fregueses e discutir com eles.
Uma vertente da Rua Bilbao levou esta atitude ao extremo. Assim nasceu a Escola Psicanalítica da Desesperação.
Os médicos que seguiram esta nova técnica se propunham reagir ante o relato do paciente de um modo evidente e até exagerado, para que o doente compreendesse que era compadecido.
Por exemplo: se um senhor contava que estava cheio de sua esposa, o analista chorava amargamente até cair na desesperação. Claro que esta terapia teve, algumas vezes, conseqüências desagradáveis.
Assim, quando alguém contava que castigava seus filhos, não faltava o psicólogo desafiante que se enfrentava ao paciente e gritava: “Por que não bate em mim, sem-vergonha!”
As atividades da Escola Psicanalítica da Desesperação cessaram, mas do que nada, por causa das queixas dos vizinhos. Um negócio bastante interessante foi o dos psicanalistas a domicilio.
A idéia surgiu a partir da forte necessidade que muitos pacientes tinham de seus analistas a toda hora.
Certos neuróticos com grana pensaram que uma boa solução era contratar um psicoterapeuta de modo permanente. Então se fez bastante freqüente o costume de ter um analista em casa, que – de passagem – eliminava a chateação de se submeter a uma sessão, pois não tinha maior sentido contar ao profissional o que ele podia ver com seus próprios olhos.
A verdade é que, no caso dos psicanalistas ortodoxos, sua função no domicilio do doente não era muito mais ativa do que a de um vaso de flores. Limitavam-se a percorrer os cômodos murmurando “hemmm” e afirmando com a cabeça.
Muitos deles ainda continuam nas casas das famílias acomodadas, alguns como jardineiros, outros como primos ou enteados.
O auge da atividade psicanalítica no bairro de Flores popularizou suas técnicas mais simples. Qualquer costureira sabia o que era o complexo de Édipo ou uma neurose obsessiva.
Os Homens Sensíveis se sentiram fascinados pelo jogo da interpretação. Para eles não se tratava de um exercício científico, senão artístico. E não lhes faltava razão.
Alguém deixa um guarda-chuva esquecido no bar La Pilarica.
Interpretação: existe o desejo de voltar ao estabelecimento.
Alguém conta piadas o tempo todo.
Interpretação: há uma tristeza oculta.

Alguém sente horror pelos facões.
Interpretação: Houve um acidente na infância.
Claro que os poetas cunharam interpretações novas muitas delas de alto valor literário.
Vejamos:
Alguém mete o dedo no nariz.
Interpretação: Está à procura de sua alma.
Uma mulher é bela demais
Interpretação: Trata-se do demônio.
Um homem afia sua faca no meio-fio:
Interpretação: Vingança certa.
O mesmo mecanismo observa-se na interpretação dos sonhos. De acordo com os Homens Sensíveis, sonhar com uma mulher é amá-la, sonhar com sapatos pretos é morrer, sonhar com cair é o cinqüenta e seis.
Outra das conseqüências desta vocação psicológica foi a convicção geral de que tudo tem origens mentais.
Assim, quando um rapaz espetava um prego no pé, alguns médicos aplicavam a vacina para o tétano e outros perguntavam pela relação do espetado com seus pais. De qualquer maneira, o entusiasmou foi decaindo. Talvez o principal responsável foi Manuel Mandeb.
O pensador árabe começou a desconfiar de quem tratava de abranger a alma com deficientes definições. Não gostava também da ausência do pecado naquelas construções onde não havia canalhas, senão doentes, e onde os sem-vergonhas eram chamados de psicóticos.
Destas inquietudes surge uma obtusa monografia titulada “Loucos éramos os de antes”. Na verdade, o trabalho consiste na exposição de cento e nove casos de pessoas que concorreram ao psicanalista, sem se curarem de nada e – o que é pior – adquirindo uma espantosa satisfação de si mesmos.
A verdade é que o trabalho de Mandeb carece de todo rigor científico, mas consegue deixar a estranha sensação de que à psicanálise tampouco lhe sobra este rigor. Isto é talvez falso.
Mas a gente não termina de se convencer, tal é o efeito que os pensadores apaixonados, como Manuel Mandeb, produzem nas pessoas razoáveis.
Hoje em dia, suponho eu, os grandes investigadores da alma transitaram outros cominhos menos pitorescos. Já não parece ter muito sentido contar nossas fantasias a um senhor durante vinte e cinco anos para ver se conseguimos dormir tranqüilos.
Meus amigos ilustrados contam que há novas técnicas e que a ciência avança em forma brutal.
Como queira que seja, o simples propósito desta nota foi chamar a atenção sobre aspectos estéticos da psicanálise. Não importa que não sirva para nada: seus rituais, suas aristas absurdas, seus tiros na noite, suas metáforas, sua solenidade são elementos que um verdadeiro artista não deveria desestimar jamais.
Talvez eu chegasse tarde e todos já compreenderam isto.
Talvez os terapeutas e seus pacientes não façam nada mais do que brincar, semana a semana, um jogo apaixonante em que as fichas são sonhos, ilusões, fantasias, lembranças, angustias, amores, desencontros e frustrações.
Isto é quase tão bom quanto curar manias de perseguição.



Historia de la manzana misteriosa de Parque Chas



História do quarteirão misterioso do Parque Chas
Alejandro Dolina

Existe no bairro do Parque Chas, um quarteirão limitado pelas ruas Berna, Marselha, La Haya e Genebra. Não é possível dar a volta nesse quarteirão.
Se alguém tentar, aparecerá em qualquer outro lugar do bairro, por mais que tenha observado o método rigoroso de girar sempre à esquerda ou sempre à direita.
Muitos investigadores tentaram a experiência formando grupos numerosos. Os resultados foram desalentadores. Às vezes acontecia do passeante continuar na mesma rua mesmo depois de virar na esquina.
Em 1957, um grupo de exploradores franceses desembocou inexplicavelmente na estação Villa Urquiza.
Urbanistas catalães provaram sorte formando duas equipes e partindo cada um em direção oposta. Em qualquer quarteirão da cidade é fatal que os grupos se encontrem na metade do recorrido. Mas neste lugar não acontece semelhante coisa e até deu-se o caso de que uma equipe alcança a outra por trás.
Os mais teimosos realizaram excursões a través dos fundos das casas, com o resultado de aparecer sempre deixando atrás de si, ruas que não tinham atravessado jamais.
Nestas experiências descobriu-se que muitos vizinhos são incapazes de indicar a rua onde moram. Também existem casas que não dão a rua nenhuma. Seus habitantes se alimentam dos próprios cultivos ou do que generosamente lhes entregam por sobre o muro.
Os taxistas afirmam que nenhum caminho conduz à esquina de Ávalos e Cádiz e que, portanto, é impossível chegar a esse lugar.
Na verdade, convém não chegar perto do Parque Chas.

La Academia del Humor en Flores




 A Academia do Humor de Flores
Alejandro Dolina


Os Homens Sensíveis de Flores gostavam do humor, mas só um pouco. No fundo suspeitavam que o riso costuma esconder a covardia. E sentiam que os momentos verdadeiramente grandes da vida não suportavam bem as palhaçadas.
Um pouco de razão tinham: muitas vezes uma piada oportuna serve para evitar uma confissão ou um beijo. Os tímidos timoratos provocam o sorriso de seus inimigos para evitar os murros.
Ser engraçado não é simples, mas é muito mais seguro do que ser corajoso. De todos os modos, os rapazes do Anjo Cinzento cumprimentavam com suas melhores gargalhadas as idéias felizes, desde o ambicioso paradoxo até o modesto cascudo sub-reptício.
Pouco a pouco, a destreza humorística acabou por gerar – já que não o respeito – ao menos certo prestigio mundano que permitia o ingresso gratuito aos churrascos, aniversários saraus e batizados do bairro.
Naturalmente, quando as multidões alcançaram a vislumbrar as vantagens de possuir uma técnica festiva, surgiram por toda parte, jovens aspirantes que se postulavam para referir a história do camponês que estava apressado pra ir pro fundo.
A Academia do Humor em Flores ofereceu conhecimentos ordenados e oportunidades profissionais a muitíssimos simpáticos. A entidade alcançou a forjar um estilo austero e gozador, ainda hoje reconhecível em renomados locutores, jornalistas, desenhistas, escritores, atores, ou simples brincalhões particulares.
Macedônio Fernández dizia que o humor é surpresa intelectual.
A frase não define o gênero, mas o exerce. E é também uma amável recomendação do imprevisto. Neste sentido, os professores da Academia insistiam em que a pilhéria deve ser esporádica. O humorista que estende armadilhas cômicas a cada duas frases termina deixando no público uma saciedade mental da que não se consegue sair senão à mercê do tédio.
Nas aulas ensinavam a manter longos períodos de calma e seriedade, que não eram mais do que o fundo escuro destinado a ressaltar o brilho de uma brevíssima piada.
Quanto mais avançava o aluno nos cursos, mais paciente ficava e mais extensos os espaços sem brincadeiras.
Certamente alguns discípulos levaram este critério ao extremo. Às vezes escreviam longas novelas de aventuras que não eram mais do que um pretexto para uma só piada. E em certos casos, já seja por esquecimento ou por decisão artística, omitia-se totalmente qualquer troça.
Talvez muitas das obras que hoje lemos com inocência não sejam outra coisa que a desmesurada preparação de uma piada genial abolida no último instante.
O ambiente da Academia era severo e protocolar. O jeito dos professores evitava qualquer gesto familiar ou amigável. Permito-me notar nesta conduta um aspecto de inteligência fenomenal: o efeito de uma piada é tanto maior quanto mais adusta é a circunstância em que é formulado.
Um simples pum pode ser glorioso durante o discurso de um escrivão. O mesmo recurso, numa ceia de formandos ou um estádio de futebol resulta apenas em uma grosseria.
Durante os primeiros anos de cursos, procurava-se afastar os alunos da tentação da ocorrência fácil. Quem se deixava arrastar padecia severos castigos, quando não a expulsão sumária.
As apostilas e textos da Academia que chegaram até nós apresentam longas listas de recursos humorísticos desaconselhados. Um extenso capítulo rejeita o sentido duplo, que consiste em expor um objeto qualquer como se de verdade fizesse referência a uma parte comprometida do corpo humano: “Gostoso o panetone da tua irmã!”
Também se proibia o anacronismo, os jogos de palavra, as piscadelas entre parênteses, as rimas com os sobrenomes, as brincadeiras sobre políticos incultos, os nomes safados em japonês e o desafio de adivinhar como chamam a este ou aquele funcionário.
Ao final das recomendações nos espera uma frase edificante: “Convém não utilizar estes mecanismos vulgares, exceto que você seja um gênio, o que na verdade não acontece quase nunca”.
Circulavam entre os apêndices, um caderno de exercícios muito curioso. Continha numerosos inícios de comentários humorísticos que os alunos deviam completar de acordo à sua imaginação. Vejamos alguns:

Completar as seguintes piadas safadas:
1- Conversam no inferno um alemão, um japonês e um argentino. O alemão declara:
- Eu estou aqui porque assassinei um vizinho...

2- Um casal de namorados se encontra numa varanda. No melhor momento aparece o pai da moça e diz:
- Mas o que é isto?

3- Um inspetor chega a um colégio e começa a interrogar as crianças.
- Me diz você. O que pensa ser quando for grande?

As invenções dos alunos jamais eram aprovadas. Ao final do caderno e depois de infinitas frustrações, o jovem postulante compreendia ou recebia por escrito uma noção fundamental: o mundo não suporta mais as piadas safadas.
Talvez a matéria mais importante dos cursos da Academia tenha sido “Vida Humorística”. A idéia era produzir situações engraçadas reais, além das criações artificiais. Diz-se o russo Salzman chegou a ocupar essa cadeira. Para cumprir com seus trabalhos práticos, os discípulos percorriam o bairro auspiciando o estouro festivo: soltavam arrotos nas cerimônias nupciais, caçoavam dos comerciantes estrangeiros para provocar insultos em geringonça, fingiam-se de viados nos trens, gritavam pedindo socorro nos provadores das alfaiatarias; provocavam brigas com as crianças e simulavam perpétuas indecisões nos balcões das sorveterias.
Parece que o próprio Salzman fiscalizava estas tarefas colocando-se em lugares estratégicos e fazendo, a cada tanto, alguma correção ou sugestão.
O humor político é – dizem alguns – um passatempo intelectual que consiste em caçoar dos peronistas*.
No entanto, na Academia, a matéria era lecionada pelo professor Ricardo Bermudez, homem que pertencia a esta corrente política.
Desde o principio, Bermudez tenteou estabelecer que para fazer uma troça inteligente, qualquer partido político é bom. Assim, chegou a contar um dia que os democratas progressistas levantam o piso de madeira de suas casas para fazer churrasco. O efeito desta criação foi praticamente nulo.
Apesar de tudo, é preciso declarar que houve em seus ensinos alguns modestos acertos.
Refutou – por exemplo – o velho postulado segundo o qual é impossível fazer humor oficialista.
O humor – sustentavam os ortodoxos – implica sempre uma degradação de um valor. Por tanto, toda ação humorística será sempre contra alguma coisa. Daqui se infere a impossibilidade de uma piada a favor do governo ou da ordem vigente.
Os argumentos contrários de Bermudez são tão simples que sua exposição não produz o menor orgulho artístico.
“... É verdade que o humor se faz sempre contra alguma coisa, como já suspeitou Platão. Para fazer humor oficialista, bastaria então caçoar da oposição.”
Em efeito, a apresentação do inconformismo e do descontentamento como estados espirituais ridículos e também fraudulentos, propugnava indiretamente a admiração do pensamento estabelecido.
De fato, hoje em dia, nossos melhores humoristas são honestamente oficialistas, talvez por razões parecidas àquelas que levavam os Homens Sensíveis a desconfiar do Humor.
A Academia do Humor de Flores possuía também um registro de patentes que permitia aos engenhosos do bairro preservar a propriedade de suas criações.
O escritório atendia dia e noite, pois já é conhecida a rabugice dos inventores de bagatelas.
De todas as formas, e apesar dos minuciosos trâmites, nunca faltavam piadistas que se sentiam despojados por alguém. Isto acontece ainda na nossa época: cada vez que surge um programa de sucesso ou uma nova publicação de humor, muitos de nossos conhecidos declaram ter tido a mesma idéia muito antes.
O polígrafo Manuel Mandeb – que jamais registrou nada – desprezava os supostos danificados. Ouçamos seus gritos:
“Somente podem ser roubadas as idéias pequenas, as minúcias que cabem num bolso. As grandes criações são incômodas de levar e não estão ao alcance dos gatunos. Qualquer um pode se apropriar do slogan de uma nova cueca; a teoria da relatividade – no entanto – é de usurpação quase impossível.
Convém então ter grandes idéias, ou em outro caso, procurar que nossas ocorrências estejam coladas a nós de um modo tão íntimo e estreito que ninguém as possa arrancar de nossa alma. “Se quiserem saber, eu sou minhas idéias, e quem as roube de mim, deverá me levar consigo também.”
Mas a idéia de que as idéias não se roubam foi roubada a Mandeb. O advogado Gerardo Joseph a expôs como própria na conferência titulada “A Subtração de Idéias”. Dizem que Mandeb se apresentou ao palestrante e disse:
- Veja meu amigo, ao ouvi-lo expor minhas reflexões penso que eu mesmo dissertava. “Você era eu e talvez por isso mesmo não lhe arrebente os dentes”.
Poucos alunos alcançavam os cursos superiores da Academia. Lá se ensinava a arte do exemplo absurdo e, no entanto rigoroso, a deliciosa discordância entre a forma e o conteúdo, a nobreza da renúncia artística, e os divertidos defeitos da razão.
Também ensinavam música, poesia, pintura e teatro, pois sem um gênero que o contenha, o humor não é nada.
“Nosso negócio é feito o sal – diziam os mestres – mesmo que a comida sem ele é desagradável, muito pior é comer o sal sozinho”
Nos últimos tramos da carreira os aspirantes se tornavam melancólicos e quase nada os fazia rir. Talvez a busca do engraçado seja um caminho duro demais.
Ninguém jamais alcançou o título de Humorista Diplomado. Mas a não obtenção dessa jerarquia é precisamente o propósito final da entidade. Tratava-se talvez de apender a não rir, ou ainda melhor, a rir sem se esquecer.
Assim, despojado de toda pretençao, purificado de sua fome de riso, o aspirante poderá anotar algum pontinho.
A graça nunca se entraga a quem a procura demais.
A Academia de Flores acabou com os tempos dourados. Alguns continuam hoje com seus rigorosos preceitos. Outros não.




26 sept 2009

La decadencia de la amistad

A decadência da amizade
Alejandro Dolina


Muitos pensadores acreditam que, nestes tempos, a amizade é mais um tema de conversa do que uma atividade concreta.
Certamente é relativamente fácil encontrar pessoas dispostas a compor canções sobre os amigos. No entanto, é bastante difícil conseguir que essas mesmas pessoas nos emprestem dinheiro.
Pelo que parece, o sentimento amigável se encontra em decadência. Todos os dias tropeçamos com canalhas que, longe de se preocuparem pela escassez de amigos, se orgulham dela.
- Eu, amigos, o que se diz amigos, tenho muito poucos ou nenhum – nos gritam na cara. E não advertem que o sujeito está esperando que o parabenizem por semelhante façanha.
Nos anos dourados de Flores, quando alcançavam seu apogeu a compreensão, a poesia e as cutucadas de cotovelos, também existiam inimigos da amizade que preocupavam aos Homens Sensíveis.
Manuel Mandeb, o metafísico da Rua Artigas, colecionou algumas de suas obtusas opiniões em um opúsculo titulado maliciosamente Los Amigos. Com de costume, transcreveremos alguns parágrafos.
“... A amizade deve nascer na juventude ou na infância. Nossos amigos são aqueles que aprendem junto a nós ou, melhor ainda, os que vivem aventuras ao nosso lado. E, em geral, as pessoas aprendem e vivem aventuras na sua juventude. Depois quase todo mundo consegue algum emprego em casas comerciais e já fica impossível adquirir conhecimentos novos ou brigar com uma turminha.”
“... aos onze ou doze anos, começamos a detestar a família e a achar que os rapazes da esquina são muito mais divertidos do que o tio Jorge. Durante mais ou menos uma década ninguém estará mais perto do nosso coração do que estes rapazes. E se queremos nos aprovisionar de amigos, devemos fazê-lo nesse período. Depois será tarde demais...”
Pelo que se pode apreciar, o critério de Manuel Mandeb é interessante e talvez verdadeiro. Acontece que em certo momento da vida, descobrimos que estamos rodeados de estranhos: colegas de trabalho, fregueses, credores, vizinhos, cunhados. Os amigos de verdade estão longe, provavelmente encerrados em círculos parecidos.
Alguns teimosos insistem em cultivar amizades novas. Os matrimônios maduros se visitam mutuamente e desenvolvem pálidas paródias da amizade verdadeira: contam uma e outra vez episódios antigos, vividos com os amigos velhos, que já não estão. Quando somos jovens não contamos histórias aos nossos amigos: as vivemos com eles. Apesar destas sábias reflexões de Mandeb, existiu em Flores uma agência destinada a oferecer amizade aos solitários. Foi o célebre Armazém de Amigos de Ocasião. Seus fins de lucro eram inegáveis. Ainda hoje se lembra do seu ‘slogan’ publicitário: “Tenha um amigo desinteressado. Pague-o em prestações”.
Já ao se aproximar ao balcão, o freguês já notava um clima amigável e amplo. Os empregados sabiam como atacar.
- Boa tarde. Você não sabe o que a bruxa da minha mulher fez comigo hoje de manhã...
E aos trinta segundos já nos sentíamos entre amigos. Depois, entre tapinhas nas costas, piscadelas, beliscões e confidências, os comerciantes iam mostrando o amplo catálogo do armazém.
Tinham amigos silenciosos, dispostos a escutar cinqüenta vezes a história de uma operação. Amigos complacentes, sempre amáveis e elogiosos. Amigos efusivos que cumprimentavam com abraços e se despediam aos gritos. Amigos divertidos, rudes com piadas picantes e peritos em brincadeiras pesadas.
Também se prestava um serviço um tanto mais caro, especialmente para pessoas de alta posição. Consistia no aluguel de uma corte de aduladores que acompanhavam o cliente a todas as partes, riam de suas piadas, aplaudiam suas idéias e subscreviam com entusiasmo qualquer um de seus pensamentos. Precedendo esta comparsa, costumava marchar um “corneta” que abria a porta dos bares e metendo a cara gritava:
- Aí vem o doutor Del Prete!
O trabalho era tão bem feito que muitos dos contratantes já não puderam prescindir dele nunca mais. Muitos profissionais do bairro extinguiram sua fortuna pagando este serviço da agência.
Um assunto que incomodava os clientes era o rigor dos Amigos de Ocasião em seus horários. Quando expirava o prazo estipulado, acabava a amizade. Sem cumprimentar, os contratados davam meia volta e iam embora, muitas vezes interrompendo uma gargalhada ou se livrando bruscamente de um abraço fraterno.
No entanto, temos que admitir que alguns aspectos do funcionamento do Armazém eram bastante nobres.
Por exemplo, a Seção Crianças permitia que os pais escolhessem os amigos de seus filhos, sem correr risco algum.
Para isso, contavam com um numeroso plantel de crianças e inclusive de anões adestrados em diferentes atitudes.
De acordo ao gosto paterno, podiam encontrar crianças peraltas pra despertar os pequenos bobalhões, crianças estudiosas para estimular os meio burros, e crianças educadas e ajuizadas para serenar os mais piratas.
Claro, não puderam evitar que muitas crianças se resistissem à decisão de seus pais. Assim, ouvia-se com freqüência em Flores frases como esta:
- Vá brincar com os amiguinhos que seu pai alugou, poxa!
Existia também um departamento para Damas, com um amplo surtido de fofocas. Alguns mal intencionados diziam que as mulheres não contratavam amigas, senão inimigas, mas isso é outro assunto.
O fracasso mais espalhafatoso foi o da seção de Amizades Mistas. Nada difícil é perceber que os cavalheiros que solicitavam amigas escondiam quase sempre outras intenções. Não se espante o leitor pensando que nos internaremos em um tema tão enxovalhado como o da amizade entre a mulher e o homem. Vale a pena – isso sim – recordar o que disse Manuel Mandeb a uma amiga sua, talvez alugada no Armazém.
- Veja, eu posso ser seu amigo se a senhora quiser. Não tentarei seduzi-la nem me porei romântico, nem lhe farei propostas indecorosas. Mas saiba que eu preciso que exista um amor potencial. É indispensável para mim que exista uma possibilidade em um milhão de que algo surja entre nós. Deixo claro que é provável que se essa circunstância se apresenta, eu saia correndo. Mas é unicamente em virtude dessa remotíssima chance que eu estou aqui ouvindo a sua conversa feito um imbecil.
Os Homens sensíveis nunca foram bons clientes do armazém Amigos de Ocasiao. Talvez porque seus orçamentos eram muito humildes. Ou talvez porque gostavam que os amassem de graça. Em qualquer caso, os rapazes do Anjo Cinzento tinham pudor nestas questões. Para eles andar declarando publicamente o grau de amizade que sentiam por alguém era coisa de afeminados. Manuel Mandeb passava longas horas na esquina de Artigas e Morón fumando com Jorge Allen, o poeta. Muitas vezes nem se falavam. Contentavam-se com saber que o outro estava ali.
Já em sua última etapa, o armazém começou a oferecer velhos amigos.
No inicio a idéia era rastrear – a pedido do cliente – o paradeiro de pessoas ausentes e afastadas. Mas como advertiram que a tarefa era complicada demais, resolveram que era mais fácil inventar antigas amizades que resgatá-las do passado.
Prepararam então um magnífico grupo de velhos mentirosos que ante a entrada de algum candidato de certa idade, fingiam reconhecê-lo e soltavam quatro ou cinco lembranças para ir tomando confiança.
Esta seção trabalhava muito nas ceias anuais que costumavam realizar os ex-alunos dos colégios. Sua missão consistia em ir substituindo os falecidos e manter sempre a concorrência.
Assim, em certa reunião de formados do Colégio Nacional Nicolás Avellaneda, promoção 1921, aconteceu o curioso caso de que nenhum dos assistentes tinha pisado jamais esse estabelecimento, o que não os impediu de evocar professores, rir das passadas travessuras e brindar por encontros futuros.
Com o tempo, a atividade do armazém foi minguando. Contribuiu a esse fato, certa má fama que sempre ganha a amizade para os espíritos céticos. Em Flores, e em todos os bairros, se contavam lendas sobre as traições dos amigos e sobre a vantagem da solidão. Ainda em nossa época, há pessoas que sentem prazer em declarar que os cachorros são mais leais e sinceros do que os humanos. Cabe sobre isso uma pequena reflexão.
Talvez seja verdade que os cachorros não traem. Mas isso não é na verdade uma virtude do animal. Acontece simplesmente que a modesta organização mental do cachorro lhe impede realizar processos tão complicados como um calote. Quer dizer: os cachorros não podem nos trair pelo mesmo motivo que não podem escrever novelas.
Hoje, quando já não existe o Armazém Amigos de Ocasião, vele a pena perguntar se não será necessário inventar algo para substituí-lo.
Será difícil, claro. Ninguém poderá resgatar os amigos perdidos. Pouco poderá ser feito para nos livrarmos dos desconhecidos que preenchem nosso tempo. Em todo caso, cada um de nós deverá cuidar do pouco que tenha. Sem compor canções nem escrever poemas. Trata-se unicamente de se sentar um pouco na calçada ou de tomar chimarrão em silêncio com os que estão mais perto do nosso espírito.
Se já não temos os amigos de antes, é possível que exista no mundo velhos amigos que ainda não conhecemos.
Eu mesmo, na outra noite, resolvi sair do meu encerro e cheio de ilusões me encaminhei a certa esquina que conheço. Tinha vontade de fumar em silêncio junto a três ou quatro sujeitos que se estacionam naquele lugar.
Pensava, além disso, recolher uma piscadela amigável depois destes anos em que estive tão ocupado.
Mas algo estranho deve ter acontecido, porque não havia ninguém.




Leyenda del volador de Flores

Lenda do voador de Flores
Alejandro Dolina




Quase todos os homens sensíveis de Flores conheciam Luciano, o voador. Costumava atender uma banca de jornal na esquina de Bocayá com a Avenida. Seus apologistas asseguram que levantava apostas do jogo do bicho, coisa que não consta para nada ao compilador destas histórias. De resto, a través de todos os mitos de Flores parece constante o desejo de enaltecer a lembrança dos heróis, atribuindo-lhes atividades relacionadas com o jogo. Se for verdade o que se conta, Luciano voava. Suas escassas fotografias o mostram leve e magro, mas carente de asas. Uma delas, que costuma ser usada como prova do seu dom, o registra ao lado direito de um grupo numeroso e seus pés aparecem no ar, a uns escassos vinte centímetros do chão. Os cépticos atribuem este efeito a um truque fotográfico ou a um pequeno pulo oportuno.
No entanto, a tradição oral de Flores insiste em recordar os vôos de Luciano. Os mais velhos asseguram que, quando era uma criança, despendurava as pipas que ficavam embaraçadas nas árvores e recobravam as bolas que caiam nos tetos da vizinhança. Já mais velho, preferiu sempre vôos noturnos. Parece que o céu sustenta melhor de noite e não se corre o risco de chamar a atenção dos bobalhões.
Faz-se a exceção nos dias de chuva ou granizo. Luciano prescindia dos ônibus e taxímetros. Uma pequena viagem ao centro lhe ocupava apenas dez minutos. Costumava aterrissar em terraços solitários e descer pelo elevador para evitar o escândalo. Sendo voador, Luciano era discreto. Conheceu – dizem por aí – o segredo de todos os campanários de Flores, cruzou mil vezes com as bruxas nuas que sobrevoam Belgrano e cumprimentou os anjos ociosos que se deixam levar pelo vento.
Seus inimigos o acusavam de roubar figos e velocípedes, para não falar das lâmpadas das luminárias públicas. Os aviões lhe produziam terror, desde um dia em que passeando por El Palomar, um ardo Avro Lincoln quase lhe arranca a cabeça.

Manuel Mandeb foi o principal fornecedor de anedotas de Luciano. O pensador árabe conta – por exemplo – as desagradáveis conseqüências que padeceu por causa de sua ignorância no uso da bússola e da posição dos astros. Assim, nos dizem que uma noite que voava em direção ao Estádio de Vélez Sársfield com a ladina intenção de entrar de penetra, equivocou o caminho e descobriu as vertentes do rio Matanza. Encontrou lá – sustenta Mandeb – grandes populações lacustres semelhantes às que surgiram em Suíça há milênios. Tomando-o por um Deus, os inocentes habitantes o acolheram, lhe deram de beber hidromel, cederam-lhe uma jovem mais ou menos donzela e lhe obsequiaram uma parelha de galinhas e um vaso de flores, único destes objetos que ainda conserva.
Estes contos são muito suspeitos. Suspeita também é a história que fala de Luciano seguindo uma revoada de andorinhas até os trópicos ou aquela que faz referência à luta contra uma condor caipira. Quando começaram as calamidades no bairro de Flores, Luciano decidiu partir. As pombas azuis com suas penas de aço invadiram o céu do bairro e o voador sentiu medo.
Manuel Mandeb insiste em que antes de ir embora para sempre, Luciano lhe contou o segredo da sua incrível destreza. Diz Mandeb que um mágico estrangeiro lhe concedeu o dom do vôo, mas fez a seguinte recomendação: “Voarás, Luciano, mas cuida de que quem o saiba não escreva nunca a sua história. Quando alguém a leia, seu poder cessará definitivamente”
Isto explica que as façanhas de Luciano só tenham sido transmitidas em forma oral. Nenhum dos literatos de Luciano o menciona jamais. Graças a isso Luciano continuou voando até o dia de hoje, leitor ímpio, em que seus olhos curiosos o despenharam para sempre.



Los amantes desconocidos

Os amantes desconhecidos
Alejandro Dolina

A sociedade de Amantes Desconhecidos de Flores foi, talvez, a entidade mais secreta do bairro. Sua própria natureza fazia imprescindível a discrição. Há alguns anos, cada vez que alguém recebia uma carta de amor sem assinatura, os homens sábios não vacilavam em atribuí-la à Sociedade. Era isto um erro: sempre existiram apaixonados ocultos, sem necessidade de inventá-los.
Por outra parte, cabe raciocinar que a obra dos Amantes Desconhecidos só pôde ter um bom efeito na medida em que não lhes fosse atribuída. Calcula-se que durante os anos de sua atuação, a Sociedade forjou mais de duas mil histórias de amor. O procedimento habitual era simples. Sem maiores cerimônias escolhia-se uma pessoa qualquer. A maioria das vezes se tratava de solitários, melancólicos, desiludidos, entediados ou simplesmente amigos a quem a entidade desejava favorecer. O passo imediato consistia em criar um amante fictício para a pessoa escolhida. Uma equipe de engenhosos criativos se encarregava do assunto. Aos engenheiros lhes inventavam adolescentes pícaras. Às costureiras da Rua Morón, lhes desenhavam nobres arruinados. Aos Homens Sensíveis lhes faziam amantes românticas e trágicas, mas também peitudas, que era uma verdadeira delícia. Uma vez estabelecidas as características gerais do amante fictício, enviavam a primeira comunicação. Assim, muitos homens e mulheres de Flores receberam surpreendentes declarações anônimas que os enchia de estupor. Transcreve-se a continuação a carta com número de ordem 1114.
“Querido engenheiro Atilio D. Gallardo: Escrevo-lhe desde a escuridão da minha solidão. Rogo-lhe que me desculpe se usurpo sua preciosa intimidade. Mas existe, meu querido engenheiro, um sentimento dentro de mim que já não posso dominar. É preciso que o senhor saiba que lhe amo, engenheiro. O senhor não me conhece... ou pra dizer melhor: o senhor jamais reparou em mim. Quem sou eu? Não creio que valha a pena que o senhor o saiba. Digamos que me chamo Luisa, mas esse não é meu verdadeiro nome. Alguns dizem que sou jovem e bela, mas talvez exagerem. Ah... se soubesse, engenheiro, quantas vezes chorei pelo senhor. Se soubesse quantas noites acordei chorando e pronunciando seu nome: Atilio. Em meu quarto tenho um pequeno retrato seu que recortei da revista “Temas da construção”. O senhor talvez ria dos delírios de uma pobre moça apaixonada. Mas já não posso lutar mais contra meu coração, engenheiro. Quero lhe propor algo. Escreva-me. Conte-me algo de sua vida. Claro, ainda não penso revelar minha verdadeira identidade, de forma que o senhor deverá se dirigir a Luisa, Caixa postal 32. Um beijo apaixonado de sua Luisa.”
Depois começava a verdadeira história. O engenheiro respondia, Luisa escrevia outra vez, o engenheiro reclamava um encontro, Luisa se negava... e entre carta e carta iam-se conhecendo e interessando cada vez mais. Claro, o encontro não devia se produzir jamais. E esta é em verdade uma regra de ouro dos amantes desconhecidos, reais ou fictícios. Toda relação deverá girar em torno de um encontro futuro. Mas é fundamental não se encontrarem nunca. As razões são óbvias: todo amante desconhecido é perfeito. Tem a cara que desejamos. É ao nosso parecer loiro, moreno, ou ambas as coisas ao mesmo tempo.
O amante desconhecido não tem defeitos, não gagueja, não enche o saco com coisas quotidianas. Mas há uma virtude fundamental: por não ser ninguém, é também todas as pessoas do mundo. Se cometer o desatino de dar uma identidade certa, o amante desconhecido se diminui, mesmo que seja um anjo. Se for alto, já não poderá ser baixinho. Se for atlético, já não poderá ser magrinho. Se for João, já não poderá ser Pedro. Se for Luisa, já não poderá ser Esther. Por estes mesmos motivos, a Sociedade de Amantes Desconhecidos jamais enviava fotografias, apesar de sim as reclamarem de seus beneficiados.
A atividade destes filantropos tinha por objetivo combater a solidão e a desdita. Cabe dizer que sua ação despertava nos vizinhos do bairro um saudável espírito de emulação. Ao conhecer a existência de apaixonados secretos, muitas pessoas descobriam dentro de si essa mesma condição. E assim, junto aos amantes de ilusão criados pela Sociedade, produziram os amantes secretos verdadeiros.
Em seus tempos livres, Manuel Mandeb escrevia cartas com quatro amores misteriosos. O pensador suspeitava que ao menos duas fossem obra da Sociedade, mais do que nada, pelo papel barato das cartas. Mas suas investigações o levaram a comprovar a existência certa das outras duas. Uma delas acabou sendo uma companheira de um curso de violão que Mandeb seguia penosamente. Quando o homem se apresentou a ela com as cartas na Mao, a moça rompeu a chorar e fugiu para sempre. A última das amantes secretas era – como soube muito depois - Beatriz Velarde, a moça mais bela de Flores, de que – por sua vez – Mandeb era apaixonado secreto em outra coleção de cartas. Mas estava escrito que Manuel e Beatriz não se amassem nunca. O ingresso a Amantes Desconhecidos de um grupo de redatores humorísticos e malévolos provocou uma série de catástrofes que marcaram a decadência da Sociedade.
Estes profissionais, que perseguiam unicamente a diversão pessoal, começaram a enviar cartas a damas casadas e a urdir toda classe de intrigas chulas. Deste modo conseguiram que a Sra. Aurora B. de Gracia Vassari se apresentasse às quatro da manhã com uma vela na mão no fundo do Beco Trieste. Também foram os culpados de infinidade de divórcios, brigas, confusões e safanões entre os matrimônios mais acrisolados de Flores.
Mas há que mencionar um fenômeno curioso que acontecia com quase todos os membros da Sociedade. Conforme avançava a correspondência com os beneficiários, muitos roteiristas se apaixonavam de verdade. A conhecida redatora publicitária Luz Vasallo enlouqueceu de amor pelo poeta Jorge Allen, cujo caso atendeu durante meses. Para evitar estas situações, as autoridades da entidade resolveram uma rotação de roteiristas. Mas o resultado foi desastroso. As cartas perdiam coerência e verossimilhança, pois os redatores não chegavam a compenetrar devidamente com sua função. Sobre o final de suas atividades, Amantes Secretos recorreu ao telefone. Não foi uma experiência feliz. A linguagem telefônica é menos tolerante com a criação artística e, além disso, muitos roteiristas soltavam a gargalhada no meio da conversa, provocando certa perplexidade no freguês.
O jogo dos Amantes Desconhecidos era sem dúvida empolgante. Mas mesmo que admitisse processos mais ou menos prolongados, finalmente acabavam por se extinguirem. Ninguém pode resistir muito tempo à tentação de se conhecerem. Todos, cedo ou tarde, exigem a consumação do amor epistolar. E assim terminavam todas as histórias. A maioria das vezes com o silêncio e o esquecimento. Em alguma ocasião, com encontros mais bem desbotados.
Ives Castagnino, o músico de Palermo, encontrou uma vez uma dama desconhecida que havia lhe enviado cartas durante anos. Quando a viu na esquina, se aproximou e lhe disse: - Boa Noite. Sou a Decepção.
Hoje já ninguém fala dos Amantes Desconhecidos de Flores. Mas esta entidade sem fins de lucro bem pode deixar em nosso espírito a sombra de uma idéia. Por que não nos convertermos em Amante Desconhecido? Por que não ajudar com ilusões tantas almas solitárias que andam pela vizinhança?
A vida está se tornando muito tediosa. Seria maravilhoso receber uma destas manhãs um bilhete perfumado cheio de beijos que vem sabe-se lá de onde. Deixo a inquietude a tantos roteiristas, redatores, poetas e literatos que mal gastam seu tempo jogando sinuca.



21 sept 2009

El arte de la impostura



A  arte da impostura.
Alejandro Dolina


O homem de nossos dias vive tentando causar uma boa impressão. Seu principal desvelo é a aprovação alheia. Para consegui-la existem diferentes métodos e estratégias.
Alguns exercem a inteligência, outros decidem pela tenacidade ou a beleza, outros cultivam a santidade ou a coragem.
No entanto, por ser todas estas virtudes muito difíceis de cumprir, certos trapaceiros se limitam a fingi-las. Claro que também não é simples: o engano é uma disciplina que exige atenções e cuidados permanentes.
Por sorte para os hipócritas e simuladores, existe desde há muito tempo o Serviço de Ajuda ao Impostor.

1- Baseados em modernos critérios científicos, os especialistas da organização instruem, aconselham, ditam aulas, remexem casos particulares e difundem as técnicas mais refinadas para obter aparências de proveito. Quando algum pé rapado quer presumir de elegante, o Serviço lhe recomenda alfaiates, loções e gravatas. Quando se trata de aparentar cultura, o cliente tem à sua disposição frases feitas, aforismos brilhantes e gestos de suficiência. Os que pretendem passar por corajosos são adestrados na arte da fleuma e da malandragem. Muitos pobres praticam para se fingirem de ricos, e muitos ricos se esforçam por parecerem indigentes. Devemos dizer que alguns postulantes são muito burros e não chegam a completar os cursos. Outros têm características tão marcadas que acaba sendo impossível dissimulá-las. Durante muitos anos, os hipócritas desaprovados deveram se resignar a mostrar cruamente as suas verdadeiras e abomináveis condições, ou bem serem descobertos em suas torpes fraudes. Mas com o tempo, o Serviço encontrou uma fórmula drástica para socorrer aos menos favorecidos. Assim nasceu a substituição como recurso extremo. Imaginemos um moreno tentando infrutuosamente ingressar num seleto clube noturno. O homem fracassa com as tinturas e maquiagem. Imediatamente o serviço designa um loiro de pés a cabeça em sua substituição. O impostor entra sem problemas e em nome do moreno rejeitado, dança e se diverte a noite toda.
Os exemplos são inúmeros: estudantes medíocres que se fazem substituir nas provas; apaixonados tímidos que – como Cyrano de Bergerac – mandam em seu lugar um mulherengo; empregados capazes que para conseguir um Ascenso enviam um lambe-botas e pessoas fartas da sua família que se fazem substituir nos aniversários.

O Serviço de Ajuda ao Impostor foi aperfeiçoando a tecnologia da substituição com disfarces impecáveis. Suspeita-se que, hoje em dia, a maioria das pessoas com quem tratamos são na verdade agentes da organização. Nossos amigos, nossas namoradas, nossos governantes e nossos cunhados podem ter sido substituídos por impostores profissionais. Talvez eu mesmo esteja fingindo escrever estas minúcias a nome e beneficio de um cliente chamado Dolina. Talvez você, que finge me ler, esteja substituindo alguém que não se atreve a confessar que os mitos de Flores já estão enchendo o saco.

2- Os governos, do mesmo modo que as pessoas particulares, vivem preocupados pela opinião dos de fora. Continuamente sugerem à população a necessidade de melhorar o que se chama imagem exterior.
Para consegui-lo, promove-se a difusão de nossos aspectos mais brilhantes. Quando nos visitam os estrangeiros, lhes mostram nossos recantos mais apresentáveis, dão-lhe um pastel e lhes obrigam a escutar a orquestra de Osvaldo Pugliese.
A exaltação dos nossos méritos vai quase sempre acompanhada de um cuidadoso dissimulo de nossos defeitos. Além disso, com o objeto de aparentar e faltando estrangeiros, se acostuma dar bandeira ante os próprios conterrâneos.
Com toda insistência, se assinala que os médicos argentinos são os melhores do mundo, para não mencionar os doentes. Quando se produz algum defeito em uma transmissão internacional, os locutores se apressam a esclarecer que o problema se originou no satélite alemão, com o qual ficamos tranqüilos.
A atitude temerosa do julgamento alheio é proverbial no jornalismo. Há pouco tempo uma cronista aproveitou sua passagem por Roma para consultar os transeuntes italianos acerca de nossa nova situação institucional. Os telespectadores receberam várias reflexões, expressadas em geringonça que, em geral, nos perdoavam a vida. Ao final da enquete, a cronista não podia ocultar a sua satisfação. Havíamos passado a difícil prova de agradar os sorveteiros da Via Marguta.
Não estaria mal recorrer ao Serviço de Ajuda ao Impostor para aperfeiçoar nossas representações perante estranhos.
A solvência da organização nos permitiria aparentar qualquer coisa: que temos 100 milhões de habitantes, que somos prósperos, que somos poderosos. Poderiam editar censos adulterados e mapas fraudulentos que nos mostrem no dobro da nossa extensão.
Manuel Mandeb recomendou alguma vez a conveniência de nos fingirmos o Japão, para desconcertar nossos inimigos. O pensador de Flores propunha que todos nos esticássemos os olhos com os dedos e falássemos pronunciando os “erres” como “eles”.
Assim nos alcança uma dúvida: não será que outros países já nos estão enganando? A citada potência norte-americana pode ser nada mais do que uma ficção criada pelos impostores do Norte. Talvez Suécia seja um país tropical, mas dissimula. Quem sabe a União Soviética seja uma pequena república da África e Luxemburgo é na verdade o maior país do mundo.
Em todo caso, antes de encarar qualquer ação para melhorar a nossa imagem exterior, é indispensável decidir qual é a sensação que queremos deixar. Se dispersarmos os nossos esforços em simulações diferentes e desconectadas, os resultados serão mais bem confusos. Diga-se de uma vez o que fingiremos ser: uma nação tranqüila? Uma nação exaltada? Uma nação limpa? Uma nação anglo-falante?
Os tratadistas reconhecem três tipos de impostura: horizontal, ascendente e descendente. A última consiste em se mostrar pior do que é. E não faltam economistas que postulam este caminho para despertar a comiseração internacional.

3- Os teóricos mais barrocos do Serviço acreditam que a impostura é uma arte. E mais ainda: afirmam que toda arte é uma impostura. Cem gramas de pintura ao óleo nos aparecem com um rosto misterioso ou como uma paisagem lunar. Quinhentos gramas de bronze pretendem ser o corpo de Hércules. Uma curiosa combinação de tintas e papéis é apresentada como a alma de um homem atormentado.
Somente a música está livre de simulações. Um acorde em mi menor é precisamente isso e não pretende ser nada mais.
Os teóricos também defenderam o caráter ético da impostura ascendente. O argumento principal não é novidade: de tanto aparentar bondade, a gente acaba sendo bom.
Falta nesta monografia dados concretos que permitam ao leitor a contratação do Serviço. Lamentavelmente não é possível fornecê-los.
Para começar, ninguém sabe qual é a localização da entidade. Às vezes o local assume o aspecto de um armazém. Outras vezes, aparece como um bar ao passo, ou como uma estação ferroviária. Os impostores são sempre conseqüentes com as suas representações e por mais que lhes expliquemos as nossas necessidades, insistem em vender feijão, servir genebra ou despachar uma passagem de ida-e-volta a Caseros.
É verdade que freqüentemente aparecem impostores oferecendo seus serviços. Mas a organização já advertiu ao público que se trata na verdade de falsos impostores que devem ser denunciados à polícia.



4- Sabe-se lá quantos ridículos passos de dança teremos feito nós para agradar polacos e coreanos.
Estaremos bem? Não seremos uma nação fora de lugar? Que pensarão de nós estes visitantes holandeses? Gostou de nossa estrada, senhor Smith? Cuidado dissimule que aí vem um francês! Não estaremos destoando no concerto internacional?
Eu acredito que talvez não importe destoar num concerto que parece dirigido pelo Diabo.
Vale a pena tentar o caminho difícil, o mais penoso, o mais longo, mas também o mais seguro. É o caminho da verdade. Quem queira parecer honesto, que o seja. Quem queira fama de valente, que ganhe à força de coragem. E se queremos que o mundo pense que somos uma grande nação, saibamos que o mais conveniente é ser deveras uma grande nação.
Enquanto chegam esses tempos, poderíamos começar a fingir que não fingimos.



Pactos diabólicos en Flores



Pactos diabólicos em Flores
Alejandro Dolina

Os Homens Sábios asseguram que nos velhos tempos, o demônio e seus subalternos passeavam com freqüência pelo bairro de Flores. Depois do anoitecer, na praça e na estação, rondavam nobres e plebeus infernais.
Asmodeo, inspirador do jogo, visitava os antros.
Baal- Fagor auspiciava inventos e descobrimentos perversos.
Uzza e Azael ensinavam às mulheres a se maquiarem para acender a luxúria dos homens.
E também espreitavam Astaroth, Belial, Samayaza, Yekun e Belzebu, o senhor das moscas.
O próprio Satã parava numa leiteria da Rua Artigas.
O aspecto dos demônios permitia confundi-los com cidadãos vulgares. E na verdade, isto é o que acontecia geralmente. Só os muito sagazes alcançavam a vislumbrar os sinais que denunciam ao que vem da escuridão: a elegância em exageração, os sapatos reluzentes, o anel no dedinho, o relógio de ouro, uma unha longa e afiada, um papelzinho na abotoadura do colarinho.
Suspeita-se que o propósito daquelas presenças era concretizar os pactos diabólicos.
Manuel Mandeb jurava ter visto um carro de noite, conduzido pelo Coisa Ruim. O polígrafo de Flores assustava as crianças imitando o refrão:
- Almas... compro almas... chegou a tentação, dona...
O músico Ives Castagnino mostrava um contrato de pragmática imprimido na gráfica do Averno. Lá se estabeleciam as condições gerais do pacto e as obrigações do aspirante que eram treze.

1) Renegar de Deus
2) Blasfemar continuamente
3) Adorar o diabo
4) Usar qualquer meio para não procriar
5) Jurar em nome do diabo
6) Comer carne
7) Imaginar que tem comércio carnal com o diabo
8) Levar sempre consigo a imagem do diabo.
9) Lavar a cara e pentear de quatro em quatro dias
10) Tomar banho a cada quarenta e dois dias
11) Mudar de roupa a cada cinqüenta e sete dias
12) Barbear a cada noventa e um dias
13) Não cortar nem limpara as unhas jamais e comer a cada quatro horas quatro dentes de alho.

Aceitar um pacto com o demônio significava sempre a entrega da alma.
Suspeita-se que em Flores algumas pessoas foram efetivamente tentadas e alcançaram a estampar assinaturas sangrentas para legalizar a sua perdição.
O advogado Antônio B. Ávila foi acusado muitas vezes de facilitar seu escritório e os papéis carimbados para estes convênios abomináveis. Se bem a venda de almas se mantinha no maior segredo, chegaram a nós os nomes e histórias de alguns condenados por própria vontade.
Não se trata – confessemos – de casos ilustres, como o do doutor Fausto, o padre Urbain Grandier e o pintor bávaro Christoph Haizmann. Mas vale a pena conhecer estes modestos contratos infernais, nem que seja para aprender a esquivar os enganos do Adversário.


O ACORDEONISTA ANSELMO GRACIANI
Os músicos que pactuam com o diabo, alcançam sempre uma dimensão genial. Não acontecia assim com Anselmo Graciani. Sua exigência frente a Lúcifer foi poder tocar como desejava e sonhava, e os anelos musicais de Graciani eram vulgares. É verdade que despachava a variação de Canário em Paris com os olhos fechados. Mas, além dos floreios acrobáticos, seu estilo era banal e relaxante, atacado por desnecessários enfeites de aniversário.
Alcançou sucesso e renome em certos ambientes. Ives Castagnino chegou a tocar em sua orquestra e aprendeu a odiá-lo.
Dizem as más línguas que Graciani pagou o dom recebido tocando eternamente no Tártaro, para suplicio – ou desfrute – dos condenados.

DIÁLOGO ENTRE ASMODEO E O RUSSO SALZMAN
Asmodeo: Sou Asmodeo, inspirador de jogadores e dono de todas as fichas do mundo. Conheço de memória todas as mãos que se repartiram na história dos baralhos. Também conheço as que se repartirão no futuro. Os dados e as roletas me obedecem. Minha cara está em todos os naipes. E possuo a cifra secreta e fatal que somarão todos os seus pôqueres quando chegar o fim da sua vida.
Salzman: Não quer jogar um baralho comigo?
Asmodeo: Não, Salzman. Venho te oferecer o triunfo perpétuo. Somente com me adorar ganharás qualquer jogo.
Salzman: Não sei se quero ganhar
Asmodeo: Imbecil! Por acaso quer perder?
Salzman: Não, também não quero perder
Asmodeo: Então quer o quê?
Salzman: Jogar. Quero jogar, mestre... joguemos uma partida.


RUBEN GARMENDIA, O BEIJA-FLOR
Não parecia mau negócio o de Garmendia. Garantiram-lhe o amor de todas as mulheres. O tormento eterno era, sem dúvidas, um preço razoável. Todos o recordam em Flores passeando com as mulheres mais belas da cidade.
Segundo contam, as moças o seguiam pela rua. Nos botecos, se aproximavam à sua mesa para se oferecerem redondamente. Muitas vezes devia se atirar dos ônibus, fugindo do ardor das passageiras. Seus amigos o abandonaram temerosos de que seduzisse suas namoradas.
Irma Joana Inês da Cruz sentenciou que o amor é como o sal: faz mal sua falta e seu excesso.
Garmendia suportou como ninguém a segunda desdita.
Suas amantes não se resignavam à sua ausência e se apareciam em sua casa chorando e atirando pedras nas janelas. Em suas últimas épocas era visto perseguido por multidões de damas sem consolo que puxavam seu paletó.
Para completar a sua desventura, se apaixonou de uma vizinha e já não precisou da paixão das outras mulheres. Soube, além disso, que a moça o amava desde sempre, desde antes do pacto.
Compreendeu então que Satã é um trapaceiro.
Sabe-se que tentou dissolver o vínculo, mas é pouco provável que tenha conseguido.
Um marido ciumento o assassinou um dia 25 de maio.

O HOMEM QUE ERA, SEM SABÊ-LO, O DIABO
Um cavalheiro da Rua Caracas resolveu negociar a sua alma. Seguindo os rituais alcançou a convocar a Astaroth, membro da nobreza infernal.
- Desejo vender a minha alma ao diabo – declarou
- Não será possível – respondeu Astaroth
- Por quê?
- Porque você é o diabo.

O PEQUENO PACTO DE MANUEL MANDEB
Não foi fácil ao diabo tentar Manuel Mandeb. Para começar, cada vez que se aparecia, o homem continuava correndo sem dar tempo a apresentações nem propostas. Um dia, disfarçado de ferroviário, conseguiu captar a confiança do polígrafo e finalmente lhe propôs o pacto de sempre.
- Na verdade eu gostaria de obter o amor de uma certa senhorita. Mas não creio que valha uma alma. É de escassa estatura.
- Posso lhe dar esse amor e também riquezas e louvores, para completar a diferença.
- Tenho uma idéia melhor – gritou Mandeb. – Conceda-me esse amor. Em troca eu cometerei quatro iniqüidades, que talvez sejam suficientes para me condenar. Discutiram durante longo tempo. Satanás aceitou sem entusiasmo o pequeno pacto, que assinou com tinta comum. As quatro iniqüidades foram estabelecidas por escrito e eram estas:
1) um latrocínio.
2) uma blasfêmia
3) uma traição
4) a quarta iniqüidade foi identificada pelo propósito do pacto. Fazer-se amar por alguém e não dar a alma em troca é, certamente, uma canalhada.
A força de generosidades e arrependimentos, Mandeb foi emparelhando o peso de seus pecados, até ficar em condições de se salvar do inferno... ajustadamente.


O HOMEM QUE PEDIA DEMAIS
Satanás: O que pedes em troca de tua alma?
Homem: Exijo riquezas, posses, louvores e distinções... e também juventude, poder, força e saúde... exijo sabedoria, gênio, prudência... e também renome, fama, gloria e boa sorte... e amores, prazeres, sensações... dará-me tudo isso?
Satanás: Não te darei nada.
Homem: Então não terás a minha alma
Satanás: A tua alma já é minha (desaparece)

Alguns relatos do bairro mostram evidência de posses diabólicas. Sempre se suspeitou dos cantores de jazz, porque tinham a possibilidade de falar um idioma que desconheciam. Jorge Allen se jactava de ter uma alma inóspita e jurava que vários demônios tinham tentado usurpá-la sem agüentar mais de meia hora.
Também se falava de íncubos e súcubos que mantinham amores com pessoas desprevenidas.
Papini sustentava a impossibilidade dos contratos infernais. O diabo – dizia – não precisa de complicadas cláusulas para capturar almas. E cabe supor que um homem tão estúpido que renuncie ao céu em troca de alguns anos de fortuna já está perdido antes de assinar nada.
A mim parece adivinhar que estamos frente a uma alegoria.
Talvez não existam as cruentas rubricas nem os rituais. Mas é possível que algumas de nossas condutas sejam – em segredo – a subscrição de um acordo. Talvez muitos de nós tenhamos vendido a nossa alma ao diabo, ao preço miserável de nos sentirmos satisfeitos de nossa integridade.
Acho que hoje – como então – os demônios andam por perto. Já não têm, para nossa desgraça, o horrível aspecto que antigamente dava certa lealdade a sua malevolência. Agora aparecem amáveis e sorridentes, quando não angelicais. É difícil, muito difícil, reconhecer o diabo, adivinhar de que modo assinamos e imaginar que classe de inferno nos espera.
Gostaria de pensar que as almas puras alcançam a perceber uns pálidos sinais. E assim como muitos pactuam sem sabê-lo, outros sem sabê-lo não pactuam.
O céu nos proteja dos demônios, de seus empregados, de suas vítimas e dos malvados que vivem convencidos de sua bondade.