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23 jun 2013

Marcha da Raiva

La marcha de la bronca 
Autor: Miguel Cantilo

Raiva quando riem satisfeitos
por  ter comprado seus direitos
Raiva quando aparentam moralismo
e põem pra correr os artistas.
Raiva quando a plena luz do dia,
levam pra passear a hipocrisia.
Raiva das fortes, da minha,
raiva que se pode recitar.
Para os que roubam o que é nosso
com a luva de dissimular.
Para o que controla os fios
da marionete geral.
Para quem marcou as cartas
e recebe sempre a melhor.
Com o ás de espadas nos domina
e com o de paus começa a dar e dar e dar


Marcha! Um, dois...
Não posso ver
tanta mentira organizada
sem responder com voz rouca
minha raiva
minha raiva
 
Raiva porque matam com descaramento
mas nunca nada fica claro
raiva porque rouba o assaltante,
mas também rouba o comerciante
Raiva porque está proibido tudo
até o que farei de qualquer maneira
Raiva porque não se paga fiança
se nos prenderem a esperança.
Os que mandam fazem este mundo
podre e dividido em dois.
Culpa da sua ânsia de conquistar
pela força ou pela exploração.
Raiva  então quando querem
que corte meu cabelo sem razão,
é melhor ter o cabelo livre
do que uma liberdade com laca.
.
 

Marcha! Um, dois...
Não posso ver
tanta mentira organizada
sem responder com voz rouca
minha raiva
minha raiva
Raiva sem fuzis e sem bombas,
Raiva com os dois dedos em V
Raiva que também é esperança
Marcha da raiva e da fé.
.
 

21 abr 2011

Novicia

Víctor Heredia é um músico argentino destacável pelo compromisso social de suas letras. Foi membro do partido comunista até 1978. Foi censurado e sua irmã Cristina foi seqüestrada com seu marido continuando desaparecida até hoje.
Este autor colabora ativamente com organizações como Mães da Praça de Maio, Avós da Praça de Maio e agrupações indígenas como fica evidenciado no disco Taki Ongoy contra a aculturação espanhola, lembrando a luta dos índios por sua liberdade.
Gravou discos com artistas como Joan Manuel Serrat, Mercedes Sosa, León Gieco, Milton Nascimento, Silvio Rodriguez, Pablo Milanés, Chico Buarque e outros.
Deixo com vocês as duas versoes: com Chico Buarque, do disco "Tiernamente Amigos" e com Mercedes Sosa do disco "Cantora"

Novicia
Victor Herdia - Chico Buarque
Victor Heredia - Mercedes Sosa

Atravessou a linha prematura da sua infância
Vestiu esse vestidinho cor-de-ontem.
E foi como uma oração
De outonos sobre seus pés
E ir oferecendo a vida, justo na esquina,
Tremendo ausente sua nudez.

Seus leves ossos em cruz
Balançando-a em suave luz
O cara que a acaricia
E ela, novicia, chorando-se.

Ai, onde está seu amor,
Seu princepezinho azul?
Que escura noite desencadeia
Luas baratas sobre seu enxoval

Bebeu sua taça de esquecimento e saiu outra vez
Quatorze sonhos afundados afogando-se
A escolta da solidão
Escuro cão sem fé
Latindo a essa lua morta
Que a persegue junto à sombra da sua infância

Seus leves ossos em cruz
Balançando-a em suave luz
O cara que a acaricia
E ela, novicia, chorando-se.

Ai, onde está seu amor,
Seu princepezinho azul?
Que escura noite desencadeia
Luas baratas sobre seu enxoval

Atravessou a linha prematura da sua infância
Vestiu esse vestidinho cor-de-ontem.
Bebeu sua taça de esquecimento e saiu outra vez
Quatorze sonhos afundados afogando-se



6 abr 2011

Canción para un niño en la calle

Mercedes Sosa com Calle 13
Armando Tejada Gómez - Ángel Ritro)

O último disco de Mercedes Sosa foi um CD duplo, gravado entre junho de 2008 e março de 2009, de duetos com músicos de diferentes estilos e épocas. Uma das músicas mais surpreendentes do disco é a versão "Hay un niño en la calle" com Calle 13.
Calle 13, para quem ainda nao conhece, é um grupo formado por dois irmãos de Puerto Rico que mistura ritmos populares como tango, cumbia colombiana com estilos de música urbana. Em todos eles, Calle 13 imprime uma crítica social frontal e incisiva. Em seu último lançamento “Los de atrás vienen conmigo” (os de trás vêm comigo) foram acompanhados de grandes figuras da música popular latina: Rubén Blades, Café Tacvba e nesta música que trazemos hoje, por Mercedes Sosa.



Canção para uma criança na rua:






A esta hora exatamente,
Há uma criança na rua
Há uma criança na rua!

É honra dos homens protegerem o que cresce,
Cuidar que não exista infância dispersa pelas ruas,
Evitar que naufrague seu coração de barco,
Sua incrível aventura de pão e chocolate.
Pondo-lhes uma estrela no lugar da fome.
De outro modo é inútil, de outro modo é absurdo
Ensaiar na terra a alegria e o canto,
Porque de nada vale se houver uma criança na rua.

Todos os tóxicos do meu país
Entram pelo meu nariz
Lavo carros, limpo sapatos
Cheiro cola e também cocaína
Roubo carteiras, mas sou gente boa
Sou um sorriso sem dentes
Chuva sem teto, unha com terra
Sou o que sobrou da guerra
Um estômago vazio
Sou uma ferida no joelho que se cura com o frio
O melhor guia turístico do subúrbio
Por três pesos te passeio pela capital
Não preciso de visto para voar pelos arredores
Porque eu brinco com aviões de papel
Arroz com pedra, lama com vinho
E o que me faltar... eu imagino.

Não deve andar o mundo com o amor descalço
Hasteando um jornal como uma asa na mão
Subindo nos trens, trocando risadas,
Batendo no peito com uma asa cansada.
Não deve andar a vida, recém nascida, a preço,
A infância arriscada a um estreito lucro
Porque então as mãos são inúteis fardos
E o coração, apenas, um palavrão.

Quando cai a noite durmo acordado
Um olho fechado e o outro aberto
Na dúvida de que os tigres me cuspam uma bala
Minha vida é como um circo, mas sem palhaços
Vou caminhando pela vala
Fazendo malabarismos com cinco laranjas
Pedindo dinheiro a todos os que eu puder
Numa bicicleta de uma roda.
Sou oxigênio para este continente
Sou o que descuidou o Presidente.
Não te assustes se eu tenho mal cheiro
Ou se me vês sem camisa
Com os mamilos ao vento
Sou um elemento mais da paisagem.
Os resíduos da rua são minha camuflagem
Como algo que existe que parece mentira
Algo sem vida, mas que respira.


Pobre daquele que esqueceu que há uma crianca na rua,
Que há milhões de crianças que moram na rua
E multidão de crianças que crescem na rua.
Eu os vejo apertando seu coração pequeno,
Olhando-nos a todos com fábula nos olhos.
Um relâmpago interrompido lhes atravessa o olhar,
Porque ninguém protege essa vida que cresce
E o amor perdeu-se, como uma criança na rua.

A esta hora exatamente,
Há uma criança na rua
Há uma criança na rua!

Clique aqui para o website de Mercedes Sosa
Clique aqui  para o website de Calle 13




8 mar 2010

Mujeres

Hoje é o dia Internacional da Mulher.
Dedico esta música de Ricardo Arjona a todas as mulheres guerreiras e lutadoras... mas sempre femininas.









Mulheres
Ricardo Arjona

Não sei quem as inventou
Não sei quem nos fez esse favor
Teve que ser Deus
Que viu o homem tão sozinho
E sem duvidar
Pensou em dois... em dois


Dizem que foi costela
Teria dado minha coluna vertebral
Por vê-las caminhar
Depois de fazer o amor
Ir até a penteadeira
Sem se virarem, sem se virarem.


E se morassem na lua
Haveria mais astronautas
Do que areia no mar
Mais viagens ao espaço
Do que histórias em um bar
Em um bar
Por que negar que é o melhor
Que se pôs neste lugar.


Mulheres, o que nos pedem podemos
Se não podemos não existe
E se não existe inventamos por vocês
Mulheres, o que nos pedem podemos
Se não podemos não existe
E se não existe inventamos por vocês


Mulheres
O quê teria escrito Neruda?
O quê teria pintado Picasso?
Se não existissem as musas
Como vocês


Nós com o machismo
Vocês ao feminismo
E ao final a história acaba em par
Porque em par viemos
E em par há de terminar
Terminar, terminar


E se morassem na lua
Haveria mais astronautas
Do que areia no mar
Mais viagens ao espaço
Do que histórias em um bar
Em um bar
Por que negar que é o melhor
Que se pôs neste lugar.


Mulheres, o que nos pedem podemos
Se não podemos não existe
E se não existe inventamos por vocês
Mulheres, o que nos pedem podemos
Se não podemos não existe
E se não existe inventamos por vocês


Mulheres
O quê teria escrito Neruda?
O quê teria pintado Picasso?
Se não existissem as musas
Como vocês


31 ene 2010

Contigo

Joaquin Sabina

Joaquin Sabina é considerado um músico com características barrocas. Na música “Contigo” a frase “eu não quero” se repete dezoito vezes em versos hendecassílabos, uma das métricas preferidas do barroco, a maioria deles consecutivos. Como efeito de significado, o “eu não quero” na primeira pessoa definido pela negativa (outro traço barroco), dá um conceito de amor que renega opondo-o ao final de cada parte à afirmação “o que eu quero”.
Esta música pode se comparar aos versos de Quevedo, poeta do barroco: “Amor constante além da morte”. Na terceira estrofe, Sabina assimila o texto de Quevedo desenvolvendo uma escrita própria. Portanto, “E morrer contigo se te matas / e me matar contigo se morres / porque o amor, quando na morre mata / porque amores que matam nunca morrem” poderia se considerar uma espécie de “glosa” de todo o soneto “Amor constante além da morte”

" Amor constante além da morte "

Fechar poderá meus olhos a derradeira
Sombra que levarei comigo no branco dia,
E poderá desatar esta alma minha
Hora ao seu afã ansioso lisonjeia;
Mas não, dessa outra parte, na ribanceira,
Deixará a memória, onde ardia;
Nadar sabe minha chama a água fria,
E perder o respeito à lei severa.

Alma a quem todo um deus prisão foi,
Veias que humor a tanto fogo deu,
Medulas que gloriosamente arderam.

Seu corpo deixará no seu cuidado;
Serão cinza, mas terá sentido
Pó será, mas pó apaixonado.

FRANCISCO DE QUEVEDO (1580-1645)


Contigo


Eu não quero um amor civilizado,
com recibo e cenas de sofá,
Eu não quero que viajes ao passado
E voltes do mercado
Com vontade de chorar.

Eu não quero vizinhas com refogado;
Eu não quero semear nem compartilhar
Eu não quero quatorze de fevereiro
Nem parabéns pra você.

Eu não quero carregar suas malas,
Eu não quero que escolhas meu xampu
Eu não quero me mudar de planeta,
Cortar o rabo-de-cavalo
Brindar à tua saúde.

Eu não quero domingos à tarde
Eu não quero balanço no jardim.
O que eu quero, coração covarde
É que morras por mim.

E morrer contigo se te matas
E me matar contigo se morres
Porque o amor, quando não morre, mata
Porque amores que matam, nunca morrem.

Eu não quero poupar para amanhã
Não me peças chegar a fim de mês
Eu não quero comer uma maçã
Duas vezes por semana
Sem vontade de comer.

Eu não quero calor de estufa,
Eu não quero beijar tua cicatriz,
Eu não quero Paris com aguaceiro
Nem Veneza sem ti.

Não me esperes ao meio dia no juizado
Não me digas “voltemos a começar”,
Eu não quero nem livre nem ocupado,
Nem carne nem pecado
Nem orgulho nem piedade.

Eu não quero saber por que o fizeste,
Eu não quero contigo nem sem ti
O que eu quero, moça de olhos tristes
É que morras por mim.

E morrer contigo se te matas
E me matar contigo se morres
Porque o amor, quando não morre, mata
Porque amores que matam, nunca morrem.


17 dic 2009

19 dias y 500 noches

Estou aqui apresentando um músico... Joaquin Sabina. A música em espanhol atual é muito pouco escutada no Brasil, e eu queria aqui deixar um músico de que eu gosto muito.



A primeira música que vou deixar aqui traduzida é "19 dias e 500 noites", e vai dedicada a todas as mulheres fortes que eu conheço.


19 dias e 500 noites


Nossa história durou
O que duram dois peixes de gelo
Em um uísque on the rocks.
Em vez de fingir,
Ou me espatifar uma taça de ciúmes,
Ela começou a rir.
De repente me vi,
Como um cão de ninguém,
Latindo às portas do céu.
Me deixou uma frasqueira com agravos,
O mel nos lábios
E geada no cabelo.

Tinham razão
Minhas amantes
Nessa história de que antes
O mau era eu,
Com uma exceção:
Esta vez eu queria querê-la
E ela não.
Portanto foi embora,
Me deixou o coração
Nos ossos
E eu de joelhos.
Desde o táxi,
E, fazendo um excesso,
Me atirou dois beijos...
Um pra cada face.

E eu regressei
À maldição
Da gaveta sem roupa,
À perdição
Dos bares de copos,
Às cinderelas
De oferta e de esquina,
E, por essas vendas
Do fino Laina,
Pagando as contas
De gente sem alma
Que perde a calma
Pela cocaína.
Me tornando louco,
Esbanjando
A bolsa e a vida
Eu fui, pouco a pouco
Dando-a por perdida.

E isso que eu
Para não acabrunhar com
Flores a Maria,
Para não assediá-la
Com minha antologia
De lençóis frios
E alcovas vazias.
Para não comprá-la
Com bijuteria
Nem ser o fantoche
Que vai a romaria
Com a confraria
Do Santo Reproche,
Tanto a amava
Que demorei em aprender
A esquecê-la, dezenove dias
E quinhentas noites.

Disse “oi e adeus”
E a porta bateu
Como um sinal de interrogação
Suspeito que assim,
Se vingava, através do esquecimento
O Cupido de mim.
Não peço perdão
Para quê? Se vai me perdoar
Porque já não lhe importa
Sempre teve a testa muito alta,
A língua muito comprida
E a saia muito curta.

Abandonou-me
Como se abandonam
Os sapatos velhos,
Destroçou o cristal
Dos meus óculos de longe,
Retirou do espelho
Seu vivo retrato,
E fui tão toureiro
Pelas ruelas
Do jogo e do vinho
Que ontem o porteiro
Expulsou-me do cassino
De Torrelodones.
Que pena tão grande,
Negaria o Santo Sacramento,
No mesmo instante
Que ela me mandar.

E isso que eu
Para não acabrunhar com
Flores a Maria,
Para não assediá-la
Com minha antologia
De lençóis frios
E alcovas vazias.
Para não comprá-la
Com bijuteria
Nem ser o fantoche
Que vai a romaria
Com a confraria
Do Santo Reproche,
Tanto a amava
Que demorei em aprender
A esquecê-la, dezenove dias
E quinhentas noites.



11 dic 2009

El Corso Triste de la calle Caracas

O Bloco Triste da Rua Caracas
Alejandro Dolina




De acordo a uma difundida lenda, o Carnaval foi alguma vez uma festa popular, com pessoas fantasiadas, música, dança, brincadeiras e blocos. Na verdade, custa acreditar em semelhante coisa. Como queira que seja, a lendária gesta já morreu. No entanto, como silenciosos quartos vazios, restaram certas datas do folhetim às que a teimosia geral insiste em atribuir a condição de carnavalesca. Estes dias são usados, não já para festejar, mas sim para refletir e sentir saudades da ausência da festa. Trata-se como se vê, de um curioso destino: passar do entusiasmo à nostalgia, da paixão à meditação, da alegria à tristeza. Muitos espíritos taciturnos se comprazem com este estado das coisas e afirmam que a farra e a liberdade de outras épocas foram apenas um passo prévio e inevitável, cujo nobre fim cumpre-se agora, no exercício da lembrança.
Os Homens Sensíveis de Flores simpatizavam em certo modo com este critério. Para eles, o Carnaval não somente servia para seduzir senhoritas nas festas, mas também para pensar na passagem do tempo.
Pode-se afirmar sem cair na mentira que esta ilustre corja de malandros jamais conseguiu entender o sentido dos Carnavais.
Manuel Mandeb pensava que as pessoas ficavam contentes em virtude de algum acontecimento que todos conheciam menos ele. Seus amigos padeciam de um desconcerto do mesmo tipo.
Isto pode explicar a estranha conduta dos Homens Sensíveis nos blocos e nos bailes.
Durante um tempo se esforçavam por se sentirem alegres: dançavam, comiam lingüiça, punham máscaras, falavam com voz fininha e molhavam as damas com lança-perfume. Depois compreendiam que era tudo inútil e então iam a outros bailes, discutiam com os garçons, olhavam as orquestas, evocavam antigos carnavais e cantavam o tango “Siga o Bloco”. Já de madrugada maldiziam o Carnaval, se estacionavam nas esquinas desoladas e caçoavam dos caminhantes que voltavam às suas casas.
Mas numa tarde de verão, Manuel Mandeb teve uma inspiração genial. Teve a idéia de organizar todos os anos o Bloco Triste da Rua Caracas.
Tratava-se de uma idéia interessante: Mandeb pensava que nos carnavais vulgares todos dissimulavam a tristeza fantasiando-se de pessoas alegres. Seu projeto consistia em adotar fantasias e atitudes melancólicas para ver se atrás delas se instalava a alegria.
“Se sob o sonoro riso do palhaço se adivinha sempre uma lágrima, é possível que encontremos um sorriso se tiramos nossas caretas de vítimas”.
Se o propósito de Mandeb foi conseguir um clima de pesar, devemos dizer que conseguiu. O Bloco Triste da Rua Caracas era francamente tenebroso.
Todas as luzes estavam apagadas. Os assistentes deambulavam como sombras fingindo toda classe de sofrimentos.
Os blocos entoavam canções trágicas e tangos de Agustín Magaldi.
As fantasias eram penosas: de condenado à morte, de noiva abandonada, de jogador expulso, de devedor hipotecário, de vendedor de livros e de intoxicado.
Como o tempo, o Bloco Triste foi-se fazendo mais ambicioso e complexo.
Jorge Allen, o poeta, começou a escrever versos carnavalescos com pretensão literária.
“Se parliamo’ do destino borom bom bom... Quem conhece seu caminho? Borom bom bom... ninguém pode contra a sorte, a última carta é a da morte borom bom bom borom bom bom”
Os rapazes tristes de outros bairros se aproximaram pouco a pouco e logo circularam carroças de folhas secas e automóveis com as janelas fechadas.
No terceiro ano, constituiu-se um júri e se realizaram concursos e torneios.
Os blocos tiravam faíscas para ver qual era o mais deprimente. Os Lonjipietros da Desilusão, dos Decrépitos do Amanhã, e Faíscas de Solidão foram as agrupações mais renomadas.
As rainhas do bloco eram belíssimas, mas inacessíveis e perversas. O prêmio anual de máscara solta sempre foi ganho pelo mesmo individuo. Referimo-nos, lógico, ao célebre ator Eladio del Prado, quem não tinha rival na técnica da caracterização.
Suas primeiras fantasias foram simples. Uma noite apareceu fantasiado de escravo persa e todos se condoíam de ver suas costas surcada de chibatadas e seu corvo envarado sob o peso de enormes correntes.
Depois, suas criações foram mais complexas. Um domingo foi ciclope e na manhã seguinte revolucionou o bairro todo procurando o olho que ele tinha tirado. Foi também mendigo escocês e as pessoas choravam ao vê-lo suportar a neve de Glascow na Rua Caracas.
Contam que Del Prado, entusiasmado com seu sucesso, resolveu continuar com suas fantasias todo o ano. Dizem que sua destreza crescia junto à sua crueldade. Uma noite de inverno, os Homens Sensíveis pularam de alegria ao ver reaparecer Tonio Berardi, o moleque que morreu em Paris. Organizaram uma grande festa, e no momento em que levantavam as taças para celebrar a sua ressurreição, Del Prado tirou o avental, lavou os joelhos, voltou a pôr cara de pessoa adulta e apareceu tal qual era. O russo Salzman esteve duas semanas de cama e Jorge Allen quase ficou gago.
O útlimo Carnaval do Bloco Triste, Eladio del Prado se fantasiou para sempre de lembrança e ninguém voltou a vê-lo no bairro do Anjo Cinzento.
A comissão organizadora do Bloco logo advertiu que a criação de Mandeb tinha interessantes possibilidades econômicas. Isto resulta um pouco surpreendente se lembramos da nula capacidade dos Homens Sensíveis para os negócios. De todas formas, é um fato que durante longos anos, os rapazes do Anjo Cinzento venderam papel picado. Empregaram a conhecida técnica que enriqueceu tantos mercaderes: na primeira jornada, as bolsinhas estavam cheias de papelzinhos brilhantes e imaculados. Quando a festa terminava, varriam o chão e voltavam a embolsar os papéis. Noite a noite, o produto ia ficando sujo e envilecia, até que na morte do Carnaval, as bolsinhas estavam cheias de terra, tampinhas de cerveja, balas a meio comer e outras porcarias. Alguns nostálgicos acreditam reconhecer ainda hoje, nos bailes de Vila del Parque, restos de papel picado primogênio que se vendia no Bloco Triste.
Para contribuir à penúria da assistência, Mandeb vendia lança-perfume cheios de lágrimas que – se acreditamos nos seus detratores – falsificava com água e sal.
Os Refutadores de Lendas, em seu caráter de Comparsa Racionalista, costumavam se aproximarem da festa da Rua Caracas para comprar briga. Todos lembram seus afinados versos: “Os Refutadores senhoras, senhores, chegam com seus ritmos e seus silogismos. Os desafiamos a expor suas ilusões e a confrontá-las com nossas refutações...”

As olímpicas razões do bloco encontravam muitas vezes contundente resposta e dentro de um clima polêmico e agudo, costumavam armar formidáveis brigas que – por certo – davam brilho e renome ao Bloco Triste.
Ano a ano, os Carnavais da Rua Caracas foram ficando mais divertidos. Naturalmente, isso provocou sua decadência.
Os Homens Sensíveis de Flores, ao observar a farra, compreendiam que o projeto inicial ia caminho ao fracasso.
A sóbria melancolia dos primeiros tempos ia cedendo lugar a sorrisos satisfeitos quando não a gargalhadas sem freio.
Ah!, - lamentavam – Carnavais eram os de antes!
E então contavam anedotas dos blocos de antigamente, austeros e silenciosos, comparando-os com a insuportável algaravia que tinham frente aos olhos.
Mas na realidade, a verdadeira essência do fracasso temos que buscá-la por outros rumos.
Como já dissemos, o que procurava Mandeb e seus amigos era um resto de alegria que devia aparecer ao tirar a máscara trágica.
E a verdade é que nunca encontraram tal coisa.
Cada vez que – com toda ilusão – abandonavam suas fantasias de atormentados, encontravam debaixo novos tormentos que, para piorar, eram reais.
Por isso, compreendendo que a felicidade não estava no Carnaval e talvez em nenhum lugar, os Homens Sensíveis dissolveram para sempre o Bloco Triste da Rua Caracas.
Hoje, quando a fama dos rapazes do Anjo Cinzento já encontrou seu túmulo nos ventos da Estação de Flores há – mesmo que poucos o adivinhem – centenas de blocos tristes. E são muito mais tristes do que o da Rua Caracas, pois sua tristeza é involuntária e seu propósito é a alegria.
Talvez chegou o momento de compreender que não nascemos para certas fanfarronadas. Que riam os brasileiros. Tenhamos, isso sim, festas e reuniões populares. Mas nao deixemos de ser quem somos. Se nossa estranha condigamo nos fez compreender o sentido adverso do mundo, agrupemo-nos para nos ajudarmos amigavelmente a suportar a adversidade.
Talvez os Carnavais de antigamente, tão sonhado pelos animadores do radio, não era mais do que isso: uma reunião de gente triste que procurava consolo.



23 nov 2009

El psicoanálisis en Flores


A psicanálise em Flores
Alejandro Dolina

A história da psicanálise no bairro de Flores é bastante curiosa. Quem conhece os Homens Sensíveis já suspeita que as teorias de Freud não foram formuladas pensando neles. E mesmo que esses varões sempre foram aventureiros e buscadores de sonhos, custa bastante imaginá-los no divã de um psicanalista.
No entanto, muitos profissionais alcançaram sucesso no bairro do Anjo Cinzento. Alguns foram consultados pelos Homens Sensíveis e até existiram escolas e correntes opostas que deram lugar a apaixonantes polêmicas.
O primeiro analista que se estabeleceu em Flores foi – conforme dizem – o doutor Mauricio D. Finkel. No inicio não foi fácil e seu consultório da Avenida Rivadavia permaneceu deserto durante meses. Os vizinhos pensavam entender que Finkel adivinhava a sorte ou abria as cartas ou talvez vendesse rifas. Com essa idéia se apresentou um dia de inverno o primeiro dos seus pacientes.
Tratava-se do poeta Jorge Allen, que procurava consolação de uma desilusão amorosa e pensou que não estava mal tentar alguma solução mágica. Finkel o fez deitar no divã e o convidou a falar. Allen contou minuciosamente que fora abandonado por certa senhorita de La Paternal, a forma em que sofria e outros detalhes menores. Transcorrido o tempo, Finkel se levantou e deu por terminada a entrevista.
- E aí? – disse Allen – faço o quê?
- Venha quinta-feira à mesma hora.
- Para quê?
- Veja, o tratamento procura que o senhor vá compreendendo seu próprio problema. A solução o senhor vai encontrar nessa mesma compreensão.
Allen voltou várias vezes. Compreendeu perfeitamente seu caso, coisa que não lhe serviu de nada: a moça de La Paternal casou-se com um consignatário de Alberti. Ao saber desta tragédia, o apaixonado anunciou a Finkel sua decisão de interromper o tratamento.
- O senhor não entende – sentenciou o analista -; o ponto é colocá-lo frente à realidade para aceitá-la e superar a sua dor.
- Não desejo superar a dor. Já perdi a mulher que eu amava. O senhor pretende me deixar também sem o sofrimento? Diga-me quanto estou lhe devendo.
Apesar deste primeiro fracasso, Finkel fez carreira.
Quando os Homens Sensíveis souberam da teoria do subconsciente, acreditaram encontrar-se frente a uma belíssima lenda.
Na praça, os Narradores de Histórias surpreendiam o auditório manifestando que todos levavam por dentro outro senhor, quem na verdade é que domina o nosso ser.
Diziam também que este senhor oculto aparecia nos piores momentos, pondo nas nossas vidas notas de luxúria, bestialidade e grosseria.
A lenda do subconsciente foi-se transformando vigorosamente e algumas de suas versões são assombrosas.
Durante muito tempo acreditavam em Flores que toda ação indecente era responsabilidade do subconsciente, ficando a salvo a inocência de quem a perpetrasse. Deste modo, os mal-educados da área justificavam seus gritos, safadezas e provocações culpando o estranho que levavam por dentro.
As pessoas decentes e retas se jactavam de não ter subconsciente e muitos pais ameaçavam seus filhos com marcar a extirpação cirúrgica do intruso responsável por suas travessuras.
Manuel Mandeb afirmou uma madrugada que ele tinha vários subconscientes, a maioria dos quais estavam contra ele.
Quase nos confins de Villa del Parque, alguns grupos de fanáticos acreditaram que o subconsciente saía da sua embalagem carnal nas noites de lua cheia para cometer toda classe de perversidades.
Seja pelo auge desta lenda, seja pelo trabalho de grupos de fedelhos procedentes do centro, o caso é que o doutor Finkel e alguns outros psicanalistas chegaram a dispor de uma regular freguesia.
Os Refutadores de Lendas não se opuseram a esta atividade, pois tinham ouvido dizer que se tratava de algo científico.
Também é verdade que não concorriam aos consultórios, coisa que é uma pena: não deve haver nada mais apaixonante do que os sonhos de um racionalista.
Com o aparecimento de novos profissionais, começaram também os diferentes focos, as heresias e as discussões. Finkel era ortodoxo: não dialogava com seus pacientes, punha-se fora de suas vistas e não lhes permitia que o olhassem. Seus inimigos afirmavam que o homem aproveitava para dormir.
Outros asseguravam que ele ia à cozinha e voltava sobre o final da sessão. E não faltavam os que pensavam que atendia duas ou mais pessoas ao mesmo tempo, dando voltinhas de inspeção entre quarto e quarto.
Outros psicanalistas preferiram enfrentar seus fregueses e discutir com eles.
Uma vertente da Rua Bilbao levou esta atitude ao extremo. Assim nasceu a Escola Psicanalítica da Desesperação.
Os médicos que seguiram esta nova técnica se propunham reagir ante o relato do paciente de um modo evidente e até exagerado, para que o doente compreendesse que era compadecido.
Por exemplo: se um senhor contava que estava cheio de sua esposa, o analista chorava amargamente até cair na desesperação. Claro que esta terapia teve, algumas vezes, conseqüências desagradáveis.
Assim, quando alguém contava que castigava seus filhos, não faltava o psicólogo desafiante que se enfrentava ao paciente e gritava: “Por que não bate em mim, sem-vergonha!”
As atividades da Escola Psicanalítica da Desesperação cessaram, mas do que nada, por causa das queixas dos vizinhos. Um negócio bastante interessante foi o dos psicanalistas a domicilio.
A idéia surgiu a partir da forte necessidade que muitos pacientes tinham de seus analistas a toda hora.
Certos neuróticos com grana pensaram que uma boa solução era contratar um psicoterapeuta de modo permanente. Então se fez bastante freqüente o costume de ter um analista em casa, que – de passagem – eliminava a chateação de se submeter a uma sessão, pois não tinha maior sentido contar ao profissional o que ele podia ver com seus próprios olhos.
A verdade é que, no caso dos psicanalistas ortodoxos, sua função no domicilio do doente não era muito mais ativa do que a de um vaso de flores. Limitavam-se a percorrer os cômodos murmurando “hemmm” e afirmando com a cabeça.
Muitos deles ainda continuam nas casas das famílias acomodadas, alguns como jardineiros, outros como primos ou enteados.
O auge da atividade psicanalítica no bairro de Flores popularizou suas técnicas mais simples. Qualquer costureira sabia o que era o complexo de Édipo ou uma neurose obsessiva.
Os Homens Sensíveis se sentiram fascinados pelo jogo da interpretação. Para eles não se tratava de um exercício científico, senão artístico. E não lhes faltava razão.
Alguém deixa um guarda-chuva esquecido no bar La Pilarica.
Interpretação: existe o desejo de voltar ao estabelecimento.
Alguém conta piadas o tempo todo.
Interpretação: há uma tristeza oculta.

Alguém sente horror pelos facões.
Interpretação: Houve um acidente na infância.
Claro que os poetas cunharam interpretações novas muitas delas de alto valor literário.
Vejamos:
Alguém mete o dedo no nariz.
Interpretação: Está à procura de sua alma.
Uma mulher é bela demais
Interpretação: Trata-se do demônio.
Um homem afia sua faca no meio-fio:
Interpretação: Vingança certa.
O mesmo mecanismo observa-se na interpretação dos sonhos. De acordo com os Homens Sensíveis, sonhar com uma mulher é amá-la, sonhar com sapatos pretos é morrer, sonhar com cair é o cinqüenta e seis.
Outra das conseqüências desta vocação psicológica foi a convicção geral de que tudo tem origens mentais.
Assim, quando um rapaz espetava um prego no pé, alguns médicos aplicavam a vacina para o tétano e outros perguntavam pela relação do espetado com seus pais. De qualquer maneira, o entusiasmou foi decaindo. Talvez o principal responsável foi Manuel Mandeb.
O pensador árabe começou a desconfiar de quem tratava de abranger a alma com deficientes definições. Não gostava também da ausência do pecado naquelas construções onde não havia canalhas, senão doentes, e onde os sem-vergonhas eram chamados de psicóticos.
Destas inquietudes surge uma obtusa monografia titulada “Loucos éramos os de antes”. Na verdade, o trabalho consiste na exposição de cento e nove casos de pessoas que concorreram ao psicanalista, sem se curarem de nada e – o que é pior – adquirindo uma espantosa satisfação de si mesmos.
A verdade é que o trabalho de Mandeb carece de todo rigor científico, mas consegue deixar a estranha sensação de que à psicanálise tampouco lhe sobra este rigor. Isto é talvez falso.
Mas a gente não termina de se convencer, tal é o efeito que os pensadores apaixonados, como Manuel Mandeb, produzem nas pessoas razoáveis.
Hoje em dia, suponho eu, os grandes investigadores da alma transitaram outros cominhos menos pitorescos. Já não parece ter muito sentido contar nossas fantasias a um senhor durante vinte e cinco anos para ver se conseguimos dormir tranqüilos.
Meus amigos ilustrados contam que há novas técnicas e que a ciência avança em forma brutal.
Como queira que seja, o simples propósito desta nota foi chamar a atenção sobre aspectos estéticos da psicanálise. Não importa que não sirva para nada: seus rituais, suas aristas absurdas, seus tiros na noite, suas metáforas, sua solenidade são elementos que um verdadeiro artista não deveria desestimar jamais.
Talvez eu chegasse tarde e todos já compreenderam isto.
Talvez os terapeutas e seus pacientes não façam nada mais do que brincar, semana a semana, um jogo apaixonante em que as fichas são sonhos, ilusões, fantasias, lembranças, angustias, amores, desencontros e frustrações.
Isto é quase tão bom quanto curar manias de perseguição.