31 ene. 2010

Contigo

Joaquin Sabina

Joaquin Sabina é considerado um músico com características barrocas. Na música “Contigo” a frase “eu não quero” se repete dezoito vezes em versos hendecassílabos, uma das métricas preferidas do barroco, a maioria deles consecutivos. Como efeito de significado, o “eu não quero” na primeira pessoa definido pela negativa (outro traço barroco), dá um conceito de amor que renega opondo-o ao final de cada parte à afirmação “o que eu quero”.
Esta música pode se comparar aos versos de Quevedo, poeta do barroco: “Amor constante além da morte”. Na terceira estrofe, Sabina assimila o texto de Quevedo desenvolvendo uma escrita própria. Portanto, “E morrer contigo se te matas / e me matar contigo se morres / porque o amor, quando na morre mata / porque amores que matam nunca morrem” poderia se considerar uma espécie de “glosa” de todo o soneto “Amor constante além da morte”

" Amor constante além da morte "

Fechar poderá meus olhos a derradeira
Sombra que levarei comigo no branco dia,
E poderá desatar esta alma minha
Hora ao seu afã ansioso lisonjeia;
Mas não, dessa outra parte, na ribanceira,
Deixará a memória, onde ardia;
Nadar sabe minha chama a água fria,
E perder o respeito à lei severa.

Alma a quem todo um deus prisão foi,
Veias que humor a tanto fogo deu,
Medulas que gloriosamente arderam.

Seu corpo deixará no seu cuidado;
Serão cinza, mas terá sentido
Pó será, mas pó apaixonado.

FRANCISCO DE QUEVEDO (1580-1645)


Contigo


Eu não quero um amor civilizado,
com recibo e cenas de sofá,
Eu não quero que viajes ao passado
E voltes do mercado
Com vontade de chorar.

Eu não quero vizinhas com refogado;
Eu não quero semear nem compartilhar
Eu não quero quatorze de fevereiro
Nem parabéns pra você.

Eu não quero carregar suas malas,
Eu não quero que escolhas meu xampu
Eu não quero me mudar de planeta,
Cortar o rabo-de-cavalo
Brindar à tua saúde.

Eu não quero domingos à tarde
Eu não quero balanço no jardim.
O que eu quero, coração covarde
É que morras por mim.

E morrer contigo se te matas
E me matar contigo se morres
Porque o amor, quando não morre, mata
Porque amores que matam, nunca morrem.

Eu não quero poupar para amanhã
Não me peças chegar a fim de mês
Eu não quero comer uma maçã
Duas vezes por semana
Sem vontade de comer.

Eu não quero calor de estufa,
Eu não quero beijar tua cicatriz,
Eu não quero Paris com aguaceiro
Nem Veneza sem ti.

Não me esperes ao meio dia no juizado
Não me digas “voltemos a começar”,
Eu não quero nem livre nem ocupado,
Nem carne nem pecado
Nem orgulho nem piedade.

Eu não quero saber por que o fizeste,
Eu não quero contigo nem sem ti
O que eu quero, moça de olhos tristes
É que morras por mim.

E morrer contigo se te matas
E me matar contigo se morres
Porque o amor, quando não morre, mata
Porque amores que matam, nunca morrem.


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