29 abr. 2009

La Vida No Vale Nada

Pablo Milanés



A VIDA NAO VALE NADA

A vida não vale nada
Se não é para perecer
Porque outros podem ter
O que a gente desfruta e ama.

A vida não vale nada
Se eu fico sentado
Depois de ver e sonhar
Que em todas partes me chamam

A vida não vale nada
Quando outros estão se matando
E eu continuo aqui cantando
Como se não acontecesse nada

A vida não vale nada
Se eu escuto um grito mortal
E não é capaz de tocar
Meu coração que se apaga.

A vida não vale nada
Se eu ignoro que o assassino
Escolheu outro caminho
E prepara uma cilada.

A vida não vale nada
Se ela surpreende outro irmão
Se eu soube de antemão
O que lhe preparava.

A vida não vale nada
Se quatro caem por minuto
E ao final pelo abuso
Decide-se a jornada.

A vida não vale nada
Se eu tenho que pospor
Outro minuto de ser
E morrer em uma cama

A vida não vale nada
Se afinal o que me rodeia
Não posso mudar do jeito
Do que tenho e que me ampara

E por isso para mim
A vida não vale nada.




27 abr. 2009

Negue

Nelson Gonçalves



Niega

Niega tu amor, tu cariño
Dime que tú ya me olvidaste
Pisa lastimando com maña
A este corazón que aún es tuyo.

Dime que tu llanto es cobardia
Pero no olvides
Que tú has sido mio um día.

Dime que ya no me quieres
Niega que me perteneciste
Y yo muestro la boca mojada
Aún marcada por los besos tuyos.


Canción por la Unidad Latinoamericana

Pablo Milanés




Canção pela Unidade da América Latina.

O nascimento de um mundo se adiou por um momento
Um breve lapso do tempo, do universo um segundo.
No entanto parecia que tudo ia acabar
Com a distância mortal que separou nossas vidas.

Realizaram a tarefa de desunir nossas mãos
E a pesar de ser irmãos, nos olhamos com temor
Quando passaram os anos, se amontoaram rancores
Esqueceram-se os amores, parecíamos estranhos.

Que distância tão sofrida, que mundo tão separado
Jamais teria encontrado sem entregar novas vidas.
Escravo por uma parte, servil criado por outra
É o primeiro que nota o último em se livrar

Explodindo esta missão de vê-lo tudo tão claro
Um dia viu-se liberal por esta revolução.
Isto não foi um bom exemplo para outros por libertar,
A nova tarefa foi isolar bloqueando toda experiência.

O que brilha com luz própria ninguém pode apagar,
Seu brilho pode alcançar a escuridão de outras costas.
O quê pagará este pesar do tempo que se perdeu,
Das vidas que custou e das que pode custar.

Será pago pela unidade dos povos em questão,
E ao que negue esta razão a história condenará.
A história leva seu carro e a muitos nos montará,
Por cima passará daquele que queira negá-lo

Bolívar lançou uma estrela que junto a Martí brilhou,
Fidel a dignificou para andar por estas terras.



25 abr. 2009

No me llames extranjero

Rafael Amor



Não me chames de estrangeiro

Não me chames estrangeiro, porque nasci longe,
Ou porque tenha outro nome a terra de onde venho
Não me chames estrangeiro, porque foi diferente o seio
Ou porque ninou minha infância outro idioma de contos-de-fada
Não me chames estrangeiro se no amor de uma mãe
Tivemos a mesma luz no canto e no beijo,
Com que nos sonham iguais as mães junto ao seu peito.

Não me chames de estrangeiro, nem penses de onde eu venho
Melhor sabermos aonde vamos, onde nos leva o tempo,
Não me chames de estrangeiro, porque teu pão e teu fogo
Acalmam minha fome e frio, e me cobre teu teto,
Não me chames de estrangeiro, teu trigo é como meu trigo
Tua mão é como a minha, teu fogo como meu fogo,
E a fome não avisa nunca, vive mudando de dono.
E me chamas estrangeiro porque me trouxe um caminho,
Porque nasci em outro povo, porque conheço outros mares,
E zarpei um dia de outro porto, se sempre ficam iguais
No adeus os lenços, as pupilas nubladas dos que deixamos
Longe, os amigos que nos lembram e são iguais os beijos
E o amor da que sonha com o dia do retorno.

Não me chames estrangeiro, trazemos o mesmo grito
E o mesmo cansaço velho que vem arrastando o homem
Desde o principio dos tempos, quando não existiam fronteiras,
Antes de que viessem eles, os que dividem e matam,
Os que roubam, os que mentem, os que vendem nossos sonhos,
Os que inventaram um dia, essa palavra: estrangeiro.

Não me chames de estrangeiro, que é uma palavra triste,
Que é uma palavra gelada e cheira a esquecimento e desterro,
Não me chames estrangeiro olha teu filho e o meu
Como correm de mãos dadas até o final do caminho,
Não me chames de estrangeiro, eles não sabem de idiomas
De limites nem bandeira; olhe-os, vão ao céu
Por um riso pássaro que os reúne em vôo.

Não me chames estrangeiro pensa em teu irmão e no meu
O corpo cheio de balas, beijando a morte no chão,
Eles não eram estrangeiros, conheciam-se de sempre
Pela liberdade eterna e igual de livres morreram
Não me chames de estrangeiro, olhe bem nos meus olhos,
Muito além do ódio, do egoísmo e do medo,
E verás que sou um homem, não posso ser estrangeiro.


23 abr. 2009

A Moça Do Sonho

Edu Lobo/ Chico Buarque de Hollanda
Intérprete Maria Bethânia



La muchacha del sueño


De repente me encantó
La muchacha contra la luz
Me arriesgué a preguntar: quien eres?
Pero se me cortó la voz
Sin maña le tomaba las manos
Como quien desataba un nudo
Soplé su rostro sin pensar
Y el rostro se deshizo en polvo.

Debe haber algún lugar
Un confuso caserón
Donde los sueños serán reales
Y la vida no.
Por ahí reinaría mi amor
Con sus risas, sus quejidos, su tez
Y una cama donde a la noche
Soñara conmigo
Tal vez

Por encantamiento volvió
Cantando a media voz
Súbito pregunté: quien eres tú?
Pero la luz osciló
Huía despacio de mí
Y cuando la sostuve, gimió
Su vestido se partió
Su rostro ya no era el suyo.

Un lugar debe existir
Una especie de bazar
Donde los sueños extraviados
Van a llegar
Entre escaleras que huyen de los pies
Y relojes que caminan hacia atrás
Si yo pudiera encontrar a mi amor
No volvería
Jamás.


Bendita tu Luz

Maná

Esta é uma banda de origem mexicana, de Guadalajara, que se reuniram, em sua origem para tocar música de grupos de que eles gostavam como Beatles e Led Zepelin. A meados dos 80 começou, no México, um movimento chamado "Rock em seu idioma" com o objetivo de desenvolver músicas em espanhol. Entre as bandas que aderiram ao movimento, Maná se popularizou e alcançou fama internacional.
Preocupados com a ecologia, criaram a Fundaçao Selva Negra.



Esta música já foi dedicada ao maridao em uma ocasiao... vem a calhar pela representatividade na nossa forma de nos conhecermos e na maneira em que nos apaixonamos...
Bendita a tua luz



Bendito o lugar, e o motivo de estar aí
Bendita a coincidência
Bendito o relógio, que nos pôs pontual aqui
Bendita seja tua presença.
Bendito Deus por nos encontrar no caminho
E de acabar com a solidão do meu destino

Bendita a luz
Bendita a luz do teu olhar
Bendita a luz
Bendita a luz do teu olhar
Desde a alma.

Benditos olhos que me esquivavam,
Simulavam desdém, que me ignoravam,
E de repente sustentas o olhar.
Bendito Deus por nos encontrar no caminho
E de me tirar esta solidão do meu destino

Bendita a luz
Bendita a luz do teu olhar
Bendita a luz
Bendita a luz do teu olhar

Glória divina,
Esta espécie de acerto.
De eu estar justo aí
No meio do caminho

Glória aos céus
Encontrar-te agora
Acabar com minha solidão
E coincidir no meu destino.
No mesmo destino.

Bendita a luz
Bendita a luz do teu olhar
Bendita a luz
Bendita a luz do teu olhar

Bendito olhar, ohh
Bendito olhar desde a alma
Teu olhar, oh oh, bendito, bendito
Bendito olhar, bendita tua alma e bendita tua luz.

Teu olhar, oh oh
Oh, oh, eu digo que é tão bendita a tua luz amor, amor
Bendito o relógio e bendito o lugar
Benditos teus beijos pertinho do mar
Teu olhar, oh oh
Amor amor
Que bendito teu olhar,
Teu olhar amor




20 abr. 2009

Dejame Entrar

Carlos Vives

Carlos Vives é um músico colombiano que combina o vallenato em fusão com rock, pop e outros rimos étnicos do caribe colombiano.
O Vallenato é um ritmo que se interpreta tradicionalmente com três instrumentos: acordeão dialtônico, a guacharaca (espécie de reco-reco) e a caixa.



Deixe-me Entrar


Deixe-me entrar no seu olhar
Quero chegar até sua alma
Deixe-me ficar entre seus beijos
Saber o que trazes por dentro

Dexe-me entrar em seu silêncio
Deixe-me ver em suas lembranças
Para saber se é você
A menina que trago nos sonhos

Cabelos que cheiram a erva
A que leva terra em seus dedos
A que deixa marcas no chão
A que goza parindo um sonho

Que perfuma as madrugadas
Com o aroma do seu corpo
E dá bom dia ao sol
No calor dos seus beijos

Deixe-me entrar no seu olhar

Ser sua partida e sua chegada
Quero nascer desde tua calma
Deixe-me ser seus pensamentos
Saber o que levas por dentro

Deixe-me entrar em seu olhar
Deixe-me entrar pela janela
Deixe-me entrar em seu olhar
Pela janela do seu coração
Deixe-me entrar no seu olhar
Deixe-me ver-te pelas manhãs
Deixe-me entrar no seu olhar
Quando já nos esquenta o sol.

Quando contigo me encontro
Meu pensamento se embaraça
E se detém minha respiração
Isto eu nunca esperei
Faz tempo que não acontecia
Para você vai minha canção.

Deixe-me entrar no seu olhar
Deixe-me entrar no seu olhar
Deixe-me ver que não há regresso
Deixe-me entrar no seu olhar
Deixe-me entrar até seus beijos
Deixe-me entrar no seu olhar
Deixe-me ver em suas lembranças
Deixe-me entrar no seu olhar
Quero nascer do seu silêncio
Deixe-me entrar no seu olhar
E percorrer todo seu corpo
Deixe-me entrar no seu olhar
Para morrer entre teus beijos
Deixe-me entrar no seu olhar


18 abr. 2009

Pivete

Chico Buarque y Francis Hime

Recordando la música de Serrat "Niño Silvestre" que traduje antes al portugués...



Atorrante

En el semáforo en rojo
Él vende chicles
Se esmera limpiando autos
Y se llama Pelé
Pinta en la ventana
Batalla por el cambio
Apunta la navaja
Y hasta ahí.

Dobla por Carioca, oleré
Baja por Frei Caneca olara
Se va hacia Tijuca
Sube al Borel
Medio que se esconde
Actúa con los narco
Consigue marihuana
Y un papel
Sueña con una mina oleré
Tabla de surf, parafina, olara
Duerme sintiéndose buena gente
Y despierta loco.

Anda por las zanjas
Cobra una pavada
Y tiene piernas torcidas
Y se llama Mané
Fuerza una puerta
Hace contacto directo
Mete la primera
Y hasta ahí va

Dobla por Carioca, oleré
Baja por Frei Caneca olara
Se va hacia Tijuca
Em contramano.
Se afloja el guardabarro
Revienta el paragolpes
Y ahora él se llama
Emerson
Sube en el paseo, oleré
Pasa por Recreo, olará
No se importa con el freno
O la dirección

En el semáforo en rojo
Él vende chicles
Y se llama atorrante
Y pinta en la ventana
Se esmera con la gamuza
Consigue una beretta
Trabaja la alcantarilla
Y tiene piernas torcidas…



Valsinha

Chico Buarque


Una amiga me hizo ver que esta bien podría ser la conclusión de la historia de la pareja del Tratado de Impaciencia Nº 10 de Sabina... Me gustaría pensar que sí...




Vals

Un día, él llegó tan diferente de su manera de siempre llegar
La miró de un modo mucho más cálido que lo que siempre solía mirar
Y no maldijo la vida tanto como era su modo de siempre de hablar
Ni la dejó en un rincón, para su gran espanto, la invitó a rodar.
Y ella entonces se puso bonita, como hace mucho no quería osar
Con su vestido escotado con olor a guardado de tanto esperar
Después se dieron los brazos como hace mucho no se usaba dar
Y llenos de ternura y gracia, fueron a la plaza y comenzaron a abrazarse
Y allí bailaron tanto que toda la vecindad despertó
Y fue tanta felicidad que la ciudad entera se iluminó
Y fueron tantos besos locos, tantos gritos roncos como no se oía más
Que el mundo comprendió
Y el día amaneció
En paz.


16 abr. 2009

Entre la Tierra y el Cielo

Los Nocheros

Dedicado a todos os ursinhos carinhosos...





Entre a terra e o céu

Sinto que me provocas,
embora não pretendas fazê-lo,
Está gravado em sua boca,
um acalorado desejo.
E eu quase posso te tocar como uma fruta madura.
Pressinto que te amarei, para além da loucura.

Eu vou comer-te o coração a beijos, ao viajar sem limites no teu corpo, e as nossas roupas no chão, suaves, gota a gota, vou te embriagar de paixão.
Eu vou comer-te o coração a beijos, ao viajar sem limites no teu corpo, vou deixar por teus lugares, pássaros e flores, como uma semente da paixão.


Agora você solta o seu cabelo e, assim descalça caminhas, vou morder a isca, pois quero o que imaginas.
Quando cai teu vestido, como uma flor no chão, não há nada proibido, entre a terra e o céu.


Eu vou comer-te o coração a beijos, ao viajar sem limites no teu corpo, e as nossas roupas no chão, suaves, gota a gota, vou te embriagar de paixão.
Eu vou comer-te o coração a beijos, ao viajar sem limites no teu corpo, vou deixar por teus lugares, pássaros e flores, como uma semente da paixão.




15 abr. 2009

Dos canciones / duas canções

Elegí estas dos canciones porque cuando escucho una de ellas recuerdo inmediatamente la otra...
Escolhi estas duas canções porque quando escuto uma delas, lembro imediatamente da outra...


Eu te amo

Chico Buarque y Tom Jobim




Yo te amo


Ah, si ya perdimos noción de la hora
Si juntos ya desechamos todo
Cuéntame ahora cómo he de partir

Ah, si al conocerte
Empecé a soñar, desvarié
Rompí con el mundo, quemé mis naves
Dime donde puedo ir aún.

Si nosotros, en las travesuras de noches eternas
Ya confundimos tanto nuestras piernas
Dime con qué piernas debo yo seguir.

Si esparciste nuestra suerte por el suelo
Si en el lío de tu corazón
Mi sangre se equivocó de vena y se perdió

Cómo, si en el desorden del armario
Mi saco abraza tu vestido
Y mis zapatos aún pisan los tuyos.

Cómo, si nos amamos como dos paganos
Tus senos aún están en mis manos
Explícame con qué cara voy a salir.

No, yo creo que te haces de sonsa
Te di mis ojos para que los guardaras
Cuéntame ahora como he de partir.




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Inventario

Joaquin Sabina



Inventario

As coisas que dizes quando calas,
Os pássaros que aninham em tuas mãos,
O espaço do teu corpo entre os lençóis,
O tempo que passamos nos insultando,
O medo à velhice, aos calendários
Os táxis que corriam aterrorizados,
A dignidade perdida em qualquer parte,
O violinista louco, os abrigos,
As luas que beijei eu em teus olhos,
O denso cheiro de esperma desbordado,
A história que caçoa de nós,
A tanga que esqueceste no armário,
O espaço que ocupas em minha alma,
A boneca salvada do incêndio,
A loucura espreitando de tocaia,
A batalha diária entre dois corpos,
Meu quarto com seu pôster de touros,
O pranto das esquinas do esquecimento,
As cinzas que restam, os despojos,
O filho que jamais tivemos,
O tempo da dor, os buracos
O gato que miava no telhado,
O passado latindo como um cão,
O exílio, o desamparo, os discursos,
Os papéis que nunca nos uniram,
A redenção que busco entre tuas coxas,
O nome na capa de um caderno,
Teu modo de agasalhar meu coração,
A cela que ocupaste em meu cárcere,
Meu barco à deriva, minha canção,
O grito do vento entre as árvores,
O silêncio com que te armas como um muro,
Tantas coisas belas que morreram
O tirânico império do absurdo,
Os escuros porões do desejo,
O pai que morreu quando eras menina,
O beijo que apodrece em nossos lábios,
A cal das paredes, a desídia,
A praia que habitavam os vermes,
O naufrágio de tantas certezas,
O desabamento de deuses e de mitos,
A escuridão em torno como um túnel
A cama navegando no vácuo,
O desmoronamento da casa
O sexo nos resgatando do tédio
O grito quebrado, a madrugada,
O amor como um rito em torno ao fogo,
A insônia, a felicidade, os cigarros,
A árdua aprendizagem do respeito
As feridas que já nem Deus nos alivia,
A merda que arrastamos sem remédio,
Tudo o que nos deram e tiraram,
Os anos transcorridos tão depressa,
O pão que compartimos, as carícias,
O peso que levamos nas mãos.



Yo Pisaré Las Calles Nuevamente

Pablo Milanés





Eu Pisarei as Ruas Novamente

Eu pisarei as ruas novamente
Do que foi Santiago ensangüentada,
E numa bela praça libertada
Deter-me-ei a chorar pelos ausentes.

Eu virei do deserto calcinante
E sairei dos bosques e dos lagos,
E evocarei num morro de Santiago
Meus irmãos que morreram antes.

Eu unido ao que fez muito e pouco
Ao que quer a pátria libertada
Dispararei as primeiras balas
Mais cedo que tarde, sem descanso.

Retornarão os livros, as canções
Que queimaram as mãos assassinas.
Renascerá meu povo de sua ruína
E pagarão sua culpa os traidores

Uma criança brincará numa alameda
E cantará com seus amigos novos,
E esse canto será o canto do solo
A uma vida ceifada em La Moneda

Eu pisarei as ruas novamente
Do que foi Santiago ensangüentado,
E numa bela praça libertada
Deter-me-ei a chorar pelos ausentes


14 abr. 2009

Tratado De Impaciencia No. 10

Joaquin Sabina



Tratado de Impaciência Nº 10


Aquela noite não choveu,
Nem apareceste te desculpando
Dizendo, enquanto te sentavas,
“desculpa se chego tarde”

Não me abrumaste com perguntas,
Nem eu tentei te impressionar
Contanto tolas aventuras,
Falsas histórias de viagens.

Nem deambulamos pelo bairro
Buscando algum tugúrio aberto,
Nem te beijei quando a lua
Sugeriu-me que era o momento.

Também não fomos dançar,
Nem tremeu um pássaro em teu peito
Quando minha boca foi passando
Das palavras aos fatos.

E não acabamos na cama,
Que é onde acabam estas coisas,
Ardendo juntos na fogueira
De pele, suor, saliva e sombra.

Assim que não estejas lamentando
O que pôde ocorrer não ocorreu.
Aquela noite que tú não foste,
Também não fui ao encontro eu...



13 abr. 2009

Trocando em miúdos

Chico Buarque




Haciendo las cuentas

Voy a dejarte la cinta del Bonfin
No me sirvió
Pero sí me quedo con el disco de Pixinguinha
El resto es tuyo

Haciendo las cuentas
Puedes guardar
Las sobras de todo lo que se dice hogar
La sombra de todo lo que fuimos nosotros
Las marcas de amor en nuestras sábanas
Y nuestros mejores recuerdos

Aquella esperanza de que todo se arreglará
Puedes olvidar
Aquella alianza puedes empeñarla
O derretirla
Pero debo decir que no voy a darte
El enorme placer de verme llorar
No voy a cobrarte por los daños
Mi pecho tan lacerado

Es más, acepta una ayuda de tu futuro amor
Para el alquiler
Devuelve el Neruda que me tomaste
Y nunca leíste

Golpeo el portón sin hacer alarde
Me llevo mi cédula de identidad
Una última cerveza, mucha nostalgia
Y la leve impresión de que ya voy tarde.







Nota del Traductor:

Medida do Bonfim

La cinta original fue creada en 1809, desapareciendo al inicio de la década de 1950. Conocida como medida del Bonfim, su nombre se debía al hecho de que mide exactamente 47 centímetros de largo, medida esta que es idéntica al brazo derecho de la Estatua de Jesús Cristo, Senhor do Bonfim, situada en el altar mayor de la iglesia más famosa de Bahia.

Se venden en diversos colores, que poseen connotaciones religiosas. Cada color representa un orixá. Así el verde oscuro es para Oxossi, celeste para Iemanjá, Amarillo para Oxum, etc.

La superstición manda que se anude en el pulso con tres nudos mientras se hacen tres pedidos y se tiene que dejar la cinta en la muñeca sin sacarla nunca hasta que ésta se rompe para que los deseos se cumplan.

11 abr. 2009

O Baiango de Salú & Ramí

Dalton S.

Esta composiçao me foi emprestada por um amigo por encaixar perfeitamente no perfil do blog rsrsrsrs.



"Sempre me interessei pela Poesia Latina, às interpretações musicais, em Espanhol, dependendo do assunto são muito mais aguerridas que o Português.
Mas nasci sob o domínio verbal luso, e por adorar as gafes que cometemos, ao nos atrevermos a discursar em castelhano, já escrevi algo sobre uma gafe do Marco Maciel, ex vice-presidente do Fernando Henrique, discursando para representantes do Mercosul, quando soltou um sonoro "Puevos Irmanos".
Sem pestanejar,escrevi em sua homenagem o Baiango de Salú e Ramí, cantado parte em Tango e parte em Baião, mas infelizmente não o tenho gravado em cd."

O Baiango de Salú & Ramí

tango- ele canta
Salustiane o que sí passa con lostê
Sumiendo assi de casa até me aborrecier
Cuidado que jo puesso mi zangar
Or miesmo sin lostê me acostumar
Voltiando a la boemia de mi cais

És su ciúme que ti faz lostê assi
Que non se uni a lo amor que habita em mi
Elpuevo em viziniança percebió
E zuomba: Sú Salú se escondió
Perfídias que assiolam su rapaz

baião- ela canta
Oh Ramires, seu safado
Não se façade coitado
Que a Izildinha me contou
Que a cumadre Severina
Que não faz nem sai de cima
Com você se amancebou

Vê se cuida da tua vida
Vê se cura essa ferida
Que eu já tenho um novo amor
Que me dá casa, comida
E amizade colorida
Sem cobrar nenhum favor


E assim se fez mais um poema em Brasinhol, eheh.

10 abr. 2009

Crônicas do Anjo Cinzento

Alejandro Dolina
Crônicas do Anjo Cinzento é o primeiro livro de Alejandro Dolina. Os relatos dão vida aos homens que habitam o bairro de Flores, localizado em Buenos Aires, vizinhanças do famoso Anjo que é um ser serviçal, mas de duvidosa eficácia, escassos poderes e ao que todos preferem evitar. O livro possui vários personagens associados em dois grupos principais “Os Homens Sensíveis” e os “Refutadores de Lendas”. Os Homens Sensíveis são “espíritos propensos aos circunlóquios metafísicos”, já os Refutadores de Lendas são os cínicos incrédulos. O texto a seguir é uma das crônicas de que se compoe o livro.



A conspiração das mulheres belas.


Quando Jorge Allen, o poeta, atravessava no caminho de alguma mulher bela, caia no mais profundo desassossego. Esta moça não será para mim – pensava enquanto a via virar para sempre na esquina. É que cada mulher que passa sem se deter é uma história de amor que não se realizará nunca. E já se sabe que os homens de coração sonham com viver todas as vidas. Em ocasiões especiais, Allen usurpava o passo de uma das mais bonitas para dizer alguma coisa:

- Veja: se não me conhecer, a senhorita não poderá ter o luxo de me esquecer...

Mas sempre acontecia a mesma coisa. As moças de Flores não mostravam o menor interesse em esquecer ou recordar o poeta.
(...)
Uma tarde, envenenado pela fria mirada de uma morena na rua Bacacay, o homem teve uma inspiração: suspeitou que a indiferença das fêmeas mais notáveis não era casual. Adivinhou uma intenção comum em todas elas. E decidiu que tinha que existir uma conjura, uma conspiração. E a chamou de A Conspiração das Mulheres Belas. Allen nunca foi um sujeito de pensamentos ordenados. Mas a sua idéia interessou muitíssimo as pessoas mais reflexivas do bairro de Flores. O primeiro fruto dessas inquietudes foi a memorável conferência no cinema San Martin pronunciada pelo polígrafo Manuel Mandeb. Seu título foi “Das mulheres é melhor não falar”. Vale a pena transcrever alguns parágrafos conservados na duvidosa memória dos supostos assistentes.

“... Ninguém pode negar o poder diabólico da beleza. Trata-se em realidade de uma força muito mais irresistível que a do dinheiro ou da prepotência. Qualquer um pode desprezar quem nos subjuga a través do suborno ou do temor. Mas, pelo contrário, não temos mais remédio que amar quem nos impõe humilhações em virtude do seu encanto. E este é um trágico paradoxo.”
(...)
Da quarta fila, um grupo de colegiais retrucou a exposição do palestrante, chamando sua atenção acerca do comportamento dos condutores de caminhões. Opinavam as meninas que estes profissionais, mais que requerê-las de amores, pareciam querer insultá-las.
(...)
E aí surge o tema polêmico. Em que consiste uma cantada? Qual é o seu objetivo e essência? Alguns sustentam tratar-se de um gênero artístico: Um homem vê uma mulher, se inspira e solta frases. Não existe esperança de uma recompensa, basta com a satisfação de haver atendido os duendes interiores.
(...)
Outra corrente, menos desinteressada, pensa que toda cantada manifesta a intenção de começar um romance. Vale dizer que se espera da dama que o recebe, uma resposta alentadora. Difícil será – por certo – que alguém obtenha um sorriso a troco de uma grosseria. O assunto é empolgante e foi desenvolvido pelo próprio Mandeb, muito depois, em um livro chamado “A objeção das colegiais”, título que despertou um equivocado entusiasmo entre os condutores de caminhões.
(...)
Os Refutadores de Lendas fizeram ouvir sua voz dias mais tarde. Em uma de suas habituais reuniões, manifestaram que não acreditavam na possibilidade de uma conspiração. O argumento dos racionalistas merece consideração: segundo eles, as mulheres belas se odeiam entre si e é inconcebível qualquer tipo de acordo entre elas. Declararam também que é falso que esta estirpe não dê atenção aos homens: todos os dias vemos mulheres belas acompanhadas de algum senhor. No cúmulo da loucura, os Homens Sensíveis contestaram que aí estava o ponto: o senhor que acompanha as mulheres formosas é sempre outro e isto provoca ainda mais tristeza que quando as vemos sozinhas. Não seria estranho que estas damas e seus acompanhantes não fossem senão íncubos e súcubos que recorrem o mundo para ser dique das almas simples. Ives Castagnino, o músico de Palermo, raciocinava deste modo: se o propósito das mulheres terríveis é fazer sofrer os homens, elas têm duas maneiras de consegui-lo:

1- Não vivendo um romance com eles
2- Vivendo um romance com eles.


Aparentemente, ao músico aterroriza muito mais a segunda alternativa.
(...)
Houve quem pediu que se esclarecesse os limites da formosura para saber concretamente quem eram as mulheres que alcançavam essa categoria. A questão é árdua, como todo juízo estético.
(...)
O assunto torna-se ainda mais complexo a causa a ação dos Aumentadores de Barangas, uns cavalheiros que com elogios e falsidades conseguem que certas bruacas acreditem ser rainhas do carnaval. Assim, os homens de coração chegam a padecer a violência de se verem rejeitados por damas que jamais pensaram seduzir. A tarefa dos Aumentadores já foi muito longe, e chegou inclusive a capas de revistas e anúncios publicitários, onde se propõe à admiração das pessoas toda classe de papagaios fantasiados de colombinas. A dizer verdade, jamais alcançaram a reunir provas convincentes sobre a existência da conspiração. Mas continuaram padecendo seus efeitos. Afortunadamente, para os rapazes, houve sempre entre as ditas conjuradas, algumas Traidoras Adoráveis. Naturalmente, toda traição tem seu preço e muitas vezes a exigência era o amor eterno. Os homens de Flores pagavam uma e outra vez esta tarifa. A denúncia de Jorge Allen já foi esquecida no bairro do Anjo Cinzento. Mas mesmo que ninguém converse sobre o assunto, basta com sair à rua para comprovar que as coisas continuam como então. Aí estão as mulheres belas em Flores e na cidade toda, gritando com seus olhares de gelo que não estão no nosso futuro nem no nosso passado.
(...)
Não há mais remédio que querê-las a pesar de tudo. E mais ainda, tentar que elas nos amem. Esta segunda tarefa é especialmente complicada e pode levar a vida eterna. Consiste, por exemplo, em ser bom, aprender a tocar piano, transformar-se em herói ou santo, estudar ciências, comprar um suéter novo, lavar os dentes, ser considerado e meigo, renunciar aos empregos nacionais. Uma vez feito tudo isso, já pode o homem apaixonado, parar na rua e esperar o passo da primeira mulher bela e dizer bem forte:

- Sofri muito, apenas para conhecer seu nome.

Certamente, ela fingirá não haver escutado, olhará o horizonte e continuará seu caminho. Mas será injusto.


Clique aqui para ver o livro completo

9 abr. 2009

Círculos Viciosos

Joaquin Sabina




Círculos Viciosos

Queria fazer o que fiz ontem, mas introduzindo uma mudança
Não metas mudanças, Silario, que o chefe anda por aí.
Por que ele é o chefe?
Porque vai de cavalo
Porque vai de cavalo?
Porque não desce dele
E porque não desce?
Porque ele vale muito
E como você sabe que vale muito?
Porque está muito claro
E por quê está tão claro?
Porque ele é o chefe!
Isso mesmo foi o que eu perguntei: e por que ele é o chefe?

Eu quero dançar um som e não me deixa Lucia
Eu no seu lugar não dançaria, porque Ramón está triste
E por que está triste?
Porque está doente
E por que está doente?
Porque está muito magro
E por que está tão magro?
Porque tem anemia
Por que tem anemia?
Porque come pouco.
Por que come pouco?
Porque está muito triste
Isso mesmo eu te perguntei. Por que está tão triste?

Queria formar sociedade com o vizinho de baixo
Esse não tem trabalho, não te fies Sebastião.
Por que não trabalha?
Porque não consegue.
Por que não consegue?
Porque está fichado
Por que está fichado?
Porque rouba muito.
E por que rouba tanto?
Porque não trabalha
Isso mesmo foi o que eu perguntei: por que não trabalha?

Quero conhecer aquele lá, conversar, dizer olá...
Não viu o revólver? Deixa disso Javier.
E por que o revólver?
Porque ele tem medo
E por que tem medo?
Porque não confia
E por que não confia?
Porque não sabe o que acontece
E por que não sabe?
Porque não lhe falam
E por que não lhe falam?
Por que tem revólver.

Isso mesmo foi o que eu perguntei: por que o revólver?
Isso mesmo foi o que eu perguntei: por que não trabalha?
Isso mesmo foi o que eu perguntei: por que está tão triste?
Isso mesmo foi o que eu perguntei: por que ele é chefe?

8 abr. 2009

Hasta Siempre Comandante Che Guevara

Silvio Rodriguez




Até sempre, comandante Che Guevara


Versão de Buena Vista Social Club


Versão de Soledad Bravo

Aprendemos a querer-te
Desde a histórica altura
Onde o sol da tua bravura
Colocou uma cerca à morte.

Aqui permanece a clara,
A entranhável transparência,
Da tua querida presença
Comandante Che Guevara.

Vens queimando a brisa
Com sóis de primavera
Para plantar a bandeira
Com a luz do teu sorriso.

Aqui permanece a clara
A entranhável transparência
Da tua querida presença
Comandante Che Guevara.

Tua mão gloriosa e forte
Sobre a história dispara
Quando toda Santa Clara
Acorda só para ver-te.

Aqui permanece a clara
A entranhável transparência
Da tua querida presença
Comandante Che Guevara.

Seguiremos adiante
Como junto a ti seguimos
E com Cuba te dizemos:
Até sempre comandante.

Aqui permanece a clara
A entranhável transparência
Da tua querida presença
Comandante Che Guevara.












Ojalá

Silvio Rodriguez


Tomara


Tomara que as folhas não toquem teu corpo quando caiam
Para que não as possas converter em cristal
Tomara que a chuva deixe de ser milagre que desce por teu corpo  
Tomara que a lua possa surgir sem ti  
Tomara que a terra não te beije os passos.

Tomara que acabe seu olhar constante  
A palavra precisa, o sorriso perfeito  
Tomara que aconteça algo que te apague de repente  
Uma luz ofuscante, um disparo de Nievi  
Tomara que pelo menos a morte me leve
Para não te ver tanto, para não te ver sempre
Em todos os segundos, em todas as visões  
Tomara que eu não possa te tocar nem em canções..
.
Tomara que a aurora não dê gritos que caiam pelas minhas costas  
Tomara que teu nome seja esquecido por esta voz  
Tomara que as paredes não retenham o ruído de seu caminhar fatigado
Tomara que o desejo vá embora atrás de ti
Ao teu velho governo de defuntos e flores.

Tomara que acabe seu olhar constante
A palavra precisa, o sorriso perfeito
Tomara que aconteça algo que te apague de repente
Uma luz ofuscante, um disparo de Nievi  
Tomara que pelo menos a morte me leve
Para não te ver tanto, para não te ver sempre  
Em todos os segundos, em todas as visões  
Tomara que eu não possa te tocar nem em canções...


***********************
Nievi: Francotirador revolucionário russo


Tatuagem

de Chico Buarque

Dedicada a Juanjo, con amor...




Tatuaje



Quiero quedarme en tu cuerpo
Como tatuaje
Para darte coraje
Para seguir viaje
Cuando cae La noche

Y también para perpetuarme
En tu esclava
Que tú tomas
Refriegas, niegas
Pero no lavas

Quiero jugar en tu cuerpo
Como bailarina
Que en seguida se alucina
Salta y te ilumina
Cuando cae la noche

Y en los músculos exhaustos
De tu brazo
Reposar floja
Mustia, harta
Muerta de cansancio

Quiero pesar como cruz
En tu espalda
Que te despedaza
En trozos
Pero en el fondo
Te gusta
Cuando cae la noche

Quiero ser la cicatriz
Risueña y corrosiva
Marcada a frio,
A hierro, fuego
En carne viva.

Corazones de madre
Arpones de sirenas
Y serpientes
Que te rayan
El cuerpo entero
Pero no lo sientes….

5 abr. 2009

A Salvador Allende En Su Combate Por La Vida

Pablo Milanés





A Salvador Allende em seu Combate pela Vida.



Que solidão tão solitaria te inundava
No momento em que teus pessoais
amigos da vida e da morte,
te rodeavam.

Que maneira de levantar-se num abraço
O ódio, a traição, a morte, a lama;
O que constituiu teu pensamento
Morreu tudo.

Que vida queimada,
Que esperança morta,
Que volta ao nada,
Que fim.

Um céu partido, uma estrela quebrada,
Rodavam dentro de ti.
Chegou esse momento, não há mais nada
Te viste a ti mesmo empunhando um fusil.

Voava
Longe teu pensamento,
Justo em direção ao tempo
De mensagens, de lealdades, de fazer.

Restava,
dar tudo ao exemplo,
e em pouco tempo
uma nova estrela armada
Fazer.

Que maneira de ficar tão gravada
tua figura ordenando nascer,
os que te viram ouviram dizer
já não te esquecem.

Lindaste com Dois rios e Ayacucho,
Como um libertador em Chacabuco,
Os Andes que te viram crescer
Te simbolizam.

Partias o ar, saltavam as pedras,
Surgias perfeito dali.
Jamais um pensamento de pluma e palavra
tornando-se tão forte adail.
cessou por um momento a existência,
morrias começando a viver.

Voava,
Longe teu pensamento,
Justo em direção ao tempo
De mensagens, de lealdades, de fazer.

Restava,
Dar tudo ao exemplo,
E em pouco tempo
Uma nova estrela armada
Fazer.


Queria deixar, junto com esta canção, a tradução das últimas palavras de Salvador Allende...
“Pagarei com minha vida a defesa de princípios que são caros a esta pátria. Cairá uma ofensa sobre aqueles que vulneraram seus compromissos, faltaram à sua palavra, romperam a doutrina das Forças Armadas.
O povo deve estar alerta e vigilante. Não deve se deixar provocar, nem massacrar, mas também deve defender suas conquistas. Deve defender o direito a construir com seu esforço uma vida digna e melhor.
Uma palavra para aqueles que, chamando-se democratas, têm estado instigando esta sublevação, para aqueles que, se chamando representantes do povo, têm estado turva e desajeitadamente atuando para fazer possível este passo que coloca o Chile no despenhadeiro.
Em nome dos mais sagrados interesses do povo, em nome da pátria, eu chamo o povo para lhes dizer que tenham fé. A história não se detém nem com a repressão nem com o crime. Esta é uma etapa que será superada, é um momento duro e difícil. É possível que nos esmaguem, mas o amanhã será do povo, será dos trabalhadores. A humanidade avança para a conquista de uma vida melhor.
Compatriotas: é possível que silenciem os rádios, e me despeço de vocês. Nestes momentos passam os aviões. É possível que nos crivem. Mas que saibam que aqui estamos, pelo menos com este exemplo, para indicar que neste país há homens que sabem cumprir com as obrigações que têm. Eu o farei por mandado do povo e pela vontade consciente de um presidente que tem a dignidade do cargo...
Talvez seja esta a última oportunidade em que possa me dirigir a vocês. A Força Aérea já bombardeou as torres da Radio Portales e Radio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas sim decepção, e serão elas o castigo moral para os que traíram o juramento que fizeram.

(...)

Ante estes fatos, só me cabe dizer aos trabalhadores: eu não vou renunciar. Colocado em uma etapa histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo, que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. Vocês têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e é feita pelos povos.
Trabalhadores da minha pátria: quero lhes agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram num homem que só foi intérprete de grandes anelos de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei e assim fez. É este o momento definitivo, o último em que eu possa me dirigir a vocês, espero que aproveitem a lição. O capital forasteiro, o imperialismo, unido à reação, criou o clima para que as Forças Armadas rompessem a sua tradição: a que foi assinalada por Schneider e que reafirma o comandante Araya, vítima do mesmo setor social que hoje estará em suas casas esperando com mão alheia conquistar o poder para seguir defendendo suas pilantragens e privilégios.

(...)

Certamente, Radio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará a vocês: Não importa, continuarão me ouvindo. Sempre estarei junto a vocês, pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à pátria. O povo deve se defender, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar ou crivar, mas também não pode se humilhar.
Trabalhadores da minha pátria: tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens o momento cinza e amargo, onde a traição pretende se impor. Continuem vocês sabendo que muito mais cedo que tarde, se abrirão as grandes avenidas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile, viva o povo, vivam os trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras, tendo a certeza de que o sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, haverá uma sanção moral que castigará a felonia, a covardia e a traição.”

Palabras como Cuerpos

Joaquin Sabina...




Palavras como Corpos



Recuperar de novo
O nome das coisas
Chamar pão ao pão
Vinho chamar de vinho
Sovaco ao sovaco
Miserável ao destino
E ao que mata chamar
De uma vez assassino
Roubaram-nos tudo,
As palavras, o sexo
Os nomes entranháveis
Do amor e dos corpos
A glória de estar vivos
A crítica, a história,
Mas não conseguiram
Roubar-nos a memória
Eles têm também
Corpo sob a roupa
Pernas, unhas, suor,
Ventre, meleca, caninos,
Mãos que não acariciam
Dedos que não se tocam
Só sabem assinar
E apertar o gatilho,
Nós que queríamos
Viver simplesmente
Irmãos da chuva
Do mar, dos amigos,
Pronunciar as palavras que
Vencem a morte
Buscar debaixo da tua saia
Alimento e abrigo.
Nós que queríamos
Dar nome às papoulas,
Dizer vento amanhece,
Raiva, fogo, dizer
Que tu queres costa
Minha língua é uma onda
Nós, que queríamos
Simplesmente viver
Vimos-nos atirados
A este combate escuro
Sem armas que opor
Ao assédio inimigo
Mais do que a doce linguagem
Dos corpos nus
E saber que logo logo
Vai desbordar o trigo.


4 abr. 2009

Tango del Quinielero

Esta música vai dedicada a todos os "boleiros" do Bolão!!!!



Tango do Apostador
Joaquin Sabina


Esta é a história de um homem qualquer
que uma tarde murcha de domingo
colado ao rádio, sofre e espera
que dêem o resultado do jogo.

Toca um tango que aflora
entre os "xis", os uns e os dois traiçoeiros
do time local
que com mais classe, no entanto perdeu
demolindo tanta teimosa ilusão
dinamitando tantas torres de naipes, tantos sonhos
do apostador pobre que terá
que voltar à fábrica de novo
segunda-feira às oito
como cada semana renunciando,
por enquanto, à entrada do piso e ao casamento
por culpa de uma bola e um goleiro,
de um pênalti sacana e de um zagueiro
por culpa de um maldito atacante.

Desilusões que assaltam as muralhas do inverno
quando acaba a tarde do domingo e não resta ao homem
mais consolo que esperar o vai-e-vem da fortuna,
resgatar do baú o traje novo
ir com a namorada ao cinema onde explora
com inútil paixão seus suaves seios
e enquanto Marlon Brando na tela dança um tango em Paris
volta a lembrança do árbitro traidor
como é possível que um pênalti desfaça tantos sonhos?

E, às oito,
deitarão por fim naquele velho cubículo de pensão
a mesma cama da manta amarela
o mesmo medo de manchar o colchão
onde abandona amassados os últimos esforços
da tarde murcha de domingo
que abre a escura porta do silêncio
como uma mão mole e taciturna
quando os verdes dedos do inverno
estejam se fechando cansados
sujos, maltratados, turvos, empoeirados
até encher de frio as lixeiras
onde agoniza o coração
do tempo.