31 mar. 2009

Las nanas de la Cebolla

Joan Manuel Serrat

Este é outro músico espanhol. O forte de todas as suas músicas é as letras. Fagner, por exemplo, já gravou em português uma das músicas em que Joan musicalizou o poema de Antônio Machado "La Saeta". Hoje eu trago outro poema musicado: "Las nanas de la cebolla". A poesia dessa música, foi escrita na cela de prisao política de Miguel Hernández, dedicada ao seu filho nascido estando ele preso, quando sua mulher lhe contou, numa carta, que só tinham pao e cebola para comer.





Acalanto da Cebola

A cebola é geada,
Densa e pobre
Geada de teus dias
E de minhas noites.
Fome e cebola
Gelo negro e geada
Grande e redonda

No berço da fome
Meu filho estava
Com sangre de cebola
Amamentava-se
Mas seu sangue
Gelado de açúcar,
Cebola e fome.

Uma mulher morena
Resolvida em lua
Derrama-se, fio a fio
Sobre o berço.
Ria, criança,
Que eu te trago a lua
Quando for preciso.

Calandra de minha casa,
Ria muito.
No teu riso, nos teus olhos
A luz do mundo
Ría tanto
Que minha alma ao te ouvir
Bata no espaço.

Teu riso me faz livre,
Põe-me asas.
Solidões me tira,
Da prisão me arranca.
Boca que voa,
Coração em teus lábios
Relampagueia.

É o teu riso a espada
Mais vitorioso
Vencedor das flores
E calandras
Rival do sol
Porvir dos meus ossos
E do meu amor.

A carne latejante
Súbito o párpado,
O viver como nunca
Colorido.
Quanto pintassilgo
Sobe em vôo, bate asas
Desde o teu corpo!

Acordei de ser criança:
Nunca acordes.
Triste levo a boca:
Ria sempre.
Sempre no berço
Defendendo o riso
Pluma por pluma.

Ser de vôo tão pulsante
Tão estendido,
Que tua carne é o céu
Recém-nascido.
Se eu pudesse
Remontar-me à origem
Da tua carreira!

Ao oitavo mês você ri
Com cinco flores
Com cinco diminutas
Ferocidades.
Com cinco dentes
Como cinco jasmins
Adolescentes.

Fronteira dos beijos
Será amanhã,
Quando na dentadura
Sintas uma arma
Sintas um fogo
Correr pelos dentes
Buscando o centro.

Voe menino na dupla
Lua dos seios:
Eles, tristes de cebola,
Tu, satisfeito.
Não te derruba
Não saibas o que passa
Nem o que acontece.

29 mar. 2009

Nuvem Negra

Cantada por Joaquin Sabina






Quando procuro o verão num sonho vazio,
Quando te queima o frio se me seguras a mão,
Quando a luz cansada tem sombras de ontem,
Quando o amanhecer é outra noite fria,

Quando aposto minha morte ao verso que não escrevo,
Quando só recebo notícias de morte,
Quando corta a espada do que já não existe,
Quando desfolho o triste cacho de nada.

Só posso te pedir que me esperes
Ao outro lado da nuvem negra,
Lá onde não restam mercadores
Que vendem solidões de genebra.

Ao outro lado dos apagões
Ao outro lado da lua falida,
Lá onde se escrevem as canções
Com fumaça branca da nuvem negra.

Quando sinto piedade por sentir o que sinto,
Quando não sopra o vento em nenhuma cidade,
Quando já não se ama nem o que se celebra,
Quando a nuvem negra se ajeita na minha cama.

Quando acordo e voto pelo medo de hoje,
Quando sou o que sou num espelho partido,
Quando fecho a casa onde me sinto ferido,
Quando é tempo perdido me perguntar o que acontece.

Só posso te pedir que me esperes
Ao outro lado da nuvem negra,
Lá onde não restam mercadores
Que vendem solidões de genebra.

Ao outro lado dos apagões
Ao outro lado da lua falida,
Lá onde se escrevem as canções
Com fumaça branca da nuvem negra.



28 mar. 2009

1968

Há quarenta anos, o mundo mudou de ritmo, a música e os artistas dessa época foram testemunhas e atores daquela revolução.

Dizem que a década de 60 foi o Renascimento do século XX e 1968 foi a síntese desta década.

A vida, a história e a arte misturam seus caminhos. Em 5 de janeiro de 1968, em Checoslováquia explodia a Primavera de Praga, Johnny Cash publicava seu direto desde a prisão de Fosom (Califórnia). Há quarenta anos, Estados Unidos enfileirava uma década cheia de mudanças.

Bob Dylan voltava à ação depois do acidente de moto que o afastou dos estúdios e cenários durante dois anos. Voltava com “John Wesley Harding” que incluía a apocalíptica “All Allong the Watchtower” onde anunciava “há muita gente entre nós que pensa que a vida não é mais do que brincadeira. Mas você e eu já passamos por isso e esse não é o nosso destino".

Em abril de 1968, aparece a trilha sonora do musical Hair. Milos Forman fez a adaptação ao cinema anos depois. Hair retrata o movimento hippie e sua luta desarmada contra a Guerra de Vietnam.

Esse ano viu morrer assassinado Martin Luther King quando se preparava para liderar a sua marcha sobre Memphis em sua luta pelos direitos civis. O homem dos sonhos e esperanças deixou parte de sua mensagem no célebre “Se soubesse que o mundo terminaria amanha, eu ainda hoje, plantaria uma árvore”

Nas olimpíadas do méxico, Tommy Smith e John Carlos ergueram os punhos em sinal de protesto contra o racismo explícito dos EUA, e perderam por isso as medalhas que ganharam brilhantemente... mas ganharam a imortalidade.

Em julho de 1968, The Doors publicavam “Waiting for the Sun”, álbum que se converteu em seu primeiro número 1. No mesmo mês em que Pablo VI condenava o uso de anticoncepcionais, The Doors cantavam a erótica “Hello I Love You” e a antibelicista “The Unknow Soldier”, assim como “Five to One”, uma canção sobre rebelião e cujo título se refere a umas estatísticas que diziam que naquela época, um de cada cinco norteamericanos era menor de vinte e cinco anos. Foram aparecendo os trabalhos de Hendrix, o primeiro de Janis Joplin, The Band, Pink Floyd...

Em natal, o astronauta William Anders tomava a primeira foto da Terra. “Foi como nos vermos em um espelho por primeira vez e descobrir que éramos estranhos, belos e perigosamente vulneráveis”

O mundo estava mudando. Na Espanha, Massiel ganhava Eurovisão com a insossa “La, la, la” se olhava de esguelha os jovens do Maio Francês, na Biblioteca Nacional se achava um volume com manuscritos e desenhos de Leonardo da Vinci, e se autorizava as escolas vascaínas a ensinar euskera.

Estréia-se “2001, Odisséia no Espaço” de Kubrick, “O Planeta dos Macacos” e Romeu e Julieta. E assim termina 1968, ao que seguirão outros anos, cheios de história, de música, de grupos, mas poucos podem presumir de semelhante eclosão cultural, de resumir o passado e de marcar o futuro.



1968
Joaquin Sabina

Aquele ano, maio durou doze meses
Você e eu acabávamos de nascer
E um senhor muito sério morria de desgosto
Na primeira página do ABC
Os cravos mordiam os magistrados
Paris era um bairro com acordeão
Marx proibiu seus filhos de chegar tarde
À doce fogueira da insurreição.

A poesia saiu à rua
Reconhecemos nossos rostos
Soubemos que tudo é possível
Em 1968.

Jean Paul Sartre e Dylan cantavam a duo
Brincavam de roda Lenin e Rambo
Os relógios marcavam 40 de febre
Falava-se de sexo na empresa Renault
Dois e dois nunca mais somaram 4
Sofreu mal de amores até Degault
Em meio de Praga cresciam papoulas
Como um desafio vermelho ao cimento cinzento

A poesia saiu à rua
Reconhecemos nossos rostos
Soubemos que tudo é possível
Em 1968.

Mas não pudemos reinventar a história
Mastigava a morte chiclete em Vietnam
No México lindo atiravam a matar
Enquanto o Che cavava seu túmulo na Bolívia
Cantava Maciel em Eurovisão.
E meu pai chegava pontual ao trabalho
Com o colarinho branco e o terno marrom

Se agora encontro aquele amigo
Leio no fundo dos seus olhos
Que já se secaram as flores
De 1968.

Os quadros fizeram greve nos museus
Paris era vermelho, São Francisco azul
Um vagabundo foi escolhido alcaide
E a Sorbona estava em Katmandú
Sobreviva imbecil! É o rock ou a morte
Beba coca-cola, cante esta canção
Que a primavera vai durar muito pouco
Que amanhã é segunda e ontem à noite choveu

Se agora encontro aquele amigo
Leio no fundo dos seus olhos
Que já se secaram as flores
De 1968


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Texto sobre a História de 1968 com a colaboração de Jorgito.