10 abr. 2009

Crônicas do Anjo Cinzento

Alejandro Dolina
Crônicas do Anjo Cinzento é o primeiro livro de Alejandro Dolina. Os relatos dão vida aos homens que habitam o bairro de Flores, localizado em Buenos Aires, vizinhanças do famoso Anjo que é um ser serviçal, mas de duvidosa eficácia, escassos poderes e ao que todos preferem evitar. O livro possui vários personagens associados em dois grupos principais “Os Homens Sensíveis” e os “Refutadores de Lendas”. Os Homens Sensíveis são “espíritos propensos aos circunlóquios metafísicos”, já os Refutadores de Lendas são os cínicos incrédulos. O texto a seguir é uma das crônicas de que se compoe o livro.



A conspiração das mulheres belas.


Quando Jorge Allen, o poeta, atravessava no caminho de alguma mulher bela, caia no mais profundo desassossego. Esta moça não será para mim – pensava enquanto a via virar para sempre na esquina. É que cada mulher que passa sem se deter é uma história de amor que não se realizará nunca. E já se sabe que os homens de coração sonham com viver todas as vidas. Em ocasiões especiais, Allen usurpava o passo de uma das mais bonitas para dizer alguma coisa:

- Veja: se não me conhecer, a senhorita não poderá ter o luxo de me esquecer...

Mas sempre acontecia a mesma coisa. As moças de Flores não mostravam o menor interesse em esquecer ou recordar o poeta.
(...)
Uma tarde, envenenado pela fria mirada de uma morena na rua Bacacay, o homem teve uma inspiração: suspeitou que a indiferença das fêmeas mais notáveis não era casual. Adivinhou uma intenção comum em todas elas. E decidiu que tinha que existir uma conjura, uma conspiração. E a chamou de A Conspiração das Mulheres Belas. Allen nunca foi um sujeito de pensamentos ordenados. Mas a sua idéia interessou muitíssimo as pessoas mais reflexivas do bairro de Flores. O primeiro fruto dessas inquietudes foi a memorável conferência no cinema San Martin pronunciada pelo polígrafo Manuel Mandeb. Seu título foi “Das mulheres é melhor não falar”. Vale a pena transcrever alguns parágrafos conservados na duvidosa memória dos supostos assistentes.

“... Ninguém pode negar o poder diabólico da beleza. Trata-se em realidade de uma força muito mais irresistível que a do dinheiro ou da prepotência. Qualquer um pode desprezar quem nos subjuga a través do suborno ou do temor. Mas, pelo contrário, não temos mais remédio que amar quem nos impõe humilhações em virtude do seu encanto. E este é um trágico paradoxo.”
(...)
Da quarta fila, um grupo de colegiais retrucou a exposição do palestrante, chamando sua atenção acerca do comportamento dos condutores de caminhões. Opinavam as meninas que estes profissionais, mais que requerê-las de amores, pareciam querer insultá-las.
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E aí surge o tema polêmico. Em que consiste uma cantada? Qual é o seu objetivo e essência? Alguns sustentam tratar-se de um gênero artístico: Um homem vê uma mulher, se inspira e solta frases. Não existe esperança de uma recompensa, basta com a satisfação de haver atendido os duendes interiores.
(...)
Outra corrente, menos desinteressada, pensa que toda cantada manifesta a intenção de começar um romance. Vale dizer que se espera da dama que o recebe, uma resposta alentadora. Difícil será – por certo – que alguém obtenha um sorriso a troco de uma grosseria. O assunto é empolgante e foi desenvolvido pelo próprio Mandeb, muito depois, em um livro chamado “A objeção das colegiais”, título que despertou um equivocado entusiasmo entre os condutores de caminhões.
(...)
Os Refutadores de Lendas fizeram ouvir sua voz dias mais tarde. Em uma de suas habituais reuniões, manifestaram que não acreditavam na possibilidade de uma conspiração. O argumento dos racionalistas merece consideração: segundo eles, as mulheres belas se odeiam entre si e é inconcebível qualquer tipo de acordo entre elas. Declararam também que é falso que esta estirpe não dê atenção aos homens: todos os dias vemos mulheres belas acompanhadas de algum senhor. No cúmulo da loucura, os Homens Sensíveis contestaram que aí estava o ponto: o senhor que acompanha as mulheres formosas é sempre outro e isto provoca ainda mais tristeza que quando as vemos sozinhas. Não seria estranho que estas damas e seus acompanhantes não fossem senão íncubos e súcubos que recorrem o mundo para ser dique das almas simples. Ives Castagnino, o músico de Palermo, raciocinava deste modo: se o propósito das mulheres terríveis é fazer sofrer os homens, elas têm duas maneiras de consegui-lo:

1- Não vivendo um romance com eles
2- Vivendo um romance com eles.


Aparentemente, ao músico aterroriza muito mais a segunda alternativa.
(...)
Houve quem pediu que se esclarecesse os limites da formosura para saber concretamente quem eram as mulheres que alcançavam essa categoria. A questão é árdua, como todo juízo estético.
(...)
O assunto torna-se ainda mais complexo a causa a ação dos Aumentadores de Barangas, uns cavalheiros que com elogios e falsidades conseguem que certas bruacas acreditem ser rainhas do carnaval. Assim, os homens de coração chegam a padecer a violência de se verem rejeitados por damas que jamais pensaram seduzir. A tarefa dos Aumentadores já foi muito longe, e chegou inclusive a capas de revistas e anúncios publicitários, onde se propõe à admiração das pessoas toda classe de papagaios fantasiados de colombinas. A dizer verdade, jamais alcançaram a reunir provas convincentes sobre a existência da conspiração. Mas continuaram padecendo seus efeitos. Afortunadamente, para os rapazes, houve sempre entre as ditas conjuradas, algumas Traidoras Adoráveis. Naturalmente, toda traição tem seu preço e muitas vezes a exigência era o amor eterno. Os homens de Flores pagavam uma e outra vez esta tarifa. A denúncia de Jorge Allen já foi esquecida no bairro do Anjo Cinzento. Mas mesmo que ninguém converse sobre o assunto, basta com sair à rua para comprovar que as coisas continuam como então. Aí estão as mulheres belas em Flores e na cidade toda, gritando com seus olhares de gelo que não estão no nosso futuro nem no nosso passado.
(...)
Não há mais remédio que querê-las a pesar de tudo. E mais ainda, tentar que elas nos amem. Esta segunda tarefa é especialmente complicada e pode levar a vida eterna. Consiste, por exemplo, em ser bom, aprender a tocar piano, transformar-se em herói ou santo, estudar ciências, comprar um suéter novo, lavar os dentes, ser considerado e meigo, renunciar aos empregos nacionais. Uma vez feito tudo isso, já pode o homem apaixonado, parar na rua e esperar o passo da primeira mulher bela e dizer bem forte:

- Sofri muito, apenas para conhecer seu nome.

Certamente, ela fingirá não haver escutado, olhará o horizonte e continuará seu caminho. Mas será injusto.


Clique aqui para ver o livro completo

3 comentarios:

  1. vai dedicado a todas as minhas belas amigas...

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  2. Muito bacana o texto!! Obrigada por publicar! =)

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  3. Que bom que tenha gostado!
    O livro talvez seja difícil de conseguir no Brasil, mas posso facilitar o link para a cópia digital.

    http://literaturaargentina.files.wordpress.com/2008/03/alejandro-dolina-cronicas-del-angel-gris.pdf

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