18 jun. 2009

Alfonsina Y El Mar

Ariel Ramirez / Felix Luna
intérprete: Mercedes Sosa

Alfonsina foi uma poetisa de vida pessoal escandalosa e poesia de vanguarda. Mãe solteira com filho de pai desconhecido enfrenta a sociedade e se estabelece como uma das maiores figuras literárias da época.
Dia 20 de maio de 1935, Alfonsina foi operada de câncer de mama. A mastectomia deixa grandes cicatrizes físicas e emocionais. Sempre sofreu de depressão, paranóia e ataques de nervos, mas agora os sintomas da doença mental recrudescem. Vira uma pessoa reservada e evita as amizades.
Em 1937 suicida-se Horacio Quiroga, e ela lhe dedica um poema de versos comovedores e que pressagiam o seu próprio final:

“Morrer como tu, Horacio, lúcido,
Assim como em teus contos, não está mal;
Um raio a tempo e acabou a feira...
Lá dirão.
Mais apodrece o medo, Horácio, que a morte
Que nas nossas costas vai.
Bebestes bem, que logo sorrias...
Lá dirão."

Em outubro de 1938, viaja a Mar del Plata. Desde aí, envia duas cartas: uma ao seu filho, Alejandro, e um “Poema de Despedida” ao jornal La Nación:

“Dentes de flores, coifa de orvalho,
Mãos de ervas, você, ama-de-leite fina,
Tenha-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deite-me.
Ponha-me uma lâmpada à cabeceira,
Uma constelação, a que você gostar,
Todas são boas, desça-as um pouquinho.

Deixe-me sozinha: ouves romper os brotos.
Nina-te um pé celeste desde cima
E um pássaro te desenha uns compassos

Para que esqueças. Obrigada... Ah, uma encomenda:
Se ele ligar novamente pra mim
Diga-lhe que não insista, que saí.”


À uma da madrugada da terça-feira vinte e cinco, Alfonsina abandonou seu quarto e se dirigiu ao mar. Essa manhã, dois operários descobriram o cadáver na praia. Os biógrafos asseguram que pulou ao mar de um penhasco, mas a lenda diz que se internou lentamente no mar...




Alfonsina e o Mar

Pela suave areia
Que lambe o mar
Sua pequena pegada
Não volta mais
Uma vereda solitária
De pena e silêncio chegou
Até a água profunda
Uma vereda solitária
De penas mudas chegou
Até a espuma.

Sabe Deus que angústias
Acompanhou-te
Que dores velhas
Calou-te a voz
Para te deitar
Ninada pelo canto
Dos caramujos marinhos
A canção que cantam
No fundo escuro do mar
Os caramujos.

Vais-te, Alfonsina
Com tua solidão.
Que poemas novos
Fostes buscar?
Uma voz antiga
De vento e de sal,
Requebra-te a alma
E a está levando
E tu vais, para lá
Como em sonhos
Dormida Alfonsina
Vestida de mar.

Cinco sereiazinhas
Levar-te-ão
Por caminhos de algas
E de corais
E fosforescentes
Cavalos marinhos farão
Uma roda ao teu lado.
E os habitantes
Da água vão brincar
Logo ao teu lado.

Desça-me a lâmpada
Um pouco mais
Deixe-me que durma,
Ama-de-leite, em paz
E se ele ligar
Não lhe diga que estou
Diga-lhe que Alfonsina
Não volta
E se ele ligar
Não lhe diga nunca que estou
Diga-lhe que fui embora

Vais-te, Alfonsina
Com tua solidão.
Que poemas novos
Fostes buscar?
Uma voz antiga
De vento e de sal,
Requebra-te a alma
E a está levando
E tu vais, para lá
Como em sonhos
Dormida Alfonsina
Vestida de mar.


4 comentarios:

  1. Ei Patrícia....dei uma passada por aqui...muito bom!! Virei mais.
    Abs, Janaina

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  2. Obrigada pelo comentário Janaína. Fico feliz de que você tenha gostado. A intençao do blog é mesmo transmitir de um idioma ao outro letras, textos e poesias cujo conteúdo eu acho interessante
    Brigada.

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  3. Vim dar uma espiada na música que te fez lembrar de mim. Mas fiquei em dúvida. Todas as letras que vi falam, pelo menos um pouco, do momento por que estou passando. Já estou até chorando aqui, igual uma bobona. Paty, nem sei como agradecer tanto carinho. Um beijo imenso, querida!

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  4. querida amiga, eu juro que esse momento que você está passando passa... e quero estar aí quando a mulher espirituosa e cheia de vida que você é resolva aparecer de novo pra espalhar cinismo e simpatia rsrsrsrsrs
    beijao menina linda.

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