17 ago. 2009

Santa María de Iquique

Reuni aqui alguns textos e música sobre a história do massacre de operários na escola Santa Maria de Iquique em 1907. Este foi a maior chacina de trabalhadores inocentes, mulheres e crianças da história do Chile.


No cancioneiro do grupo chileno Quillapayún há um disco, de 1970, chamado Cantata Popular de Santa Maria de Iquique. São 18 músicas que contam a história do massacre da Escola Domingo Santa Maria, em 1907, em que 3.600 operários salitreiros chilenos foram assassinados como resposta dos “negociadores” diante da greve de uma das atividades mais importantes do país e na época já controlada por estrangeiros, principalmente ingleses.

Triste coincidência, na obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, há o relato de um acontecimento parecido. Na fictícia Macondo de Cem Anos de Solidão, acontece o massacre de mais de três mil trabalhadores (3.600 de acordo com a Cantata) que negociavam o fim da greve na Companhia Bananeira, também controlada por norte-americanos. No romance, o episódio foi escondido de todos. Os corpos foram jogados nos vagões de um trem e nunca mais apareceram. Ninguém acreditou no depoimento do único sobrevivente e foi como se o massacre não tivesse acontecido. Da mesma forma, o assassinato dos grevistas chilenos não consta dos principais conteúdos escolares, apesar de sua importância e relevância, e muito menos nas páginas dos periódicos brasileiros.

Em suas memórias, García Márquez diz que o episódio do massacre dos trabalhadores bananeiros foi inspirado numa história que ele ouvia quando era criança e que, da mesma forma, era só comentado pelos mais velhos, mas não havia outro registro. Mais uma vez comprovando o universalismo de Cem Anos de Solidão, a realidade latino-americana é espelhada nas páginas do livro.
O sociólogo Emir Sader aponta o massacre de Iquique como o primeiro de uma série de acontecimentos que fizeram o mundo conhecer a América Latina. Na seqüência vieram a Revolução Mexicana, a Reforma Universitária de Córdoba, a Revolução Cubana, além do reconhecimento internacional da literatura com os prêmios Nobel de Gabriela Mistral, Miguel Angel Astúrias, Pablo Neruda e Gabriel García Márquez.

Fonte:
http://www.latinoamericano.jor.br/memoria_viva_iquique.html




(...) As lições que a chacina de operários, operárias e crianças no Iquique de 1907 pode nos dar hoje são bem claras: históricas, assinalando as bases (violência armada, legalidade da injustiça e distorção da informação) sobre as que foi possível levantar o capitalismo (memória da barbárie); políticas, considerando que os metralhados aí não estavam unidos pela cor da pele ou por sua nacionalidade, mas sim por sua condição social; e teórico, já que nos lembra que nada disto poderá acontecer enquanto não seja necessário para a invisível classe burguesa (e para nós que estamos colados a ela) aplicar sem limites, até onde seja necessário, sua lógica de dominação. As lições da “Cantata” de Luis Advis são também simples: se perdemos a nossa história, o que nos constitui realmente, perdemos a possibilidade de atuar no mundo. “Vocês que escutaram a história que se contou, não continuem sentados pensando que já passou, não basta apenas a lembrança, o canto não bastará, não bastará apenas o lamento, vejamos a realidade”, dizia a canção final desta cantata. Para isto precisamos escutá-la: para deixar de ser como eles.

Fonte:
Capitalismo y barbarie. Cien años de la masacre en la Escuela Santa María de Iquique.
César de Vicente Hernando




video

Tradução do texto do vídeo


“Lá ao “pampino”(1) pobre
Mataram por matar”

Quem viveu a experiência de trabalhar nas oficinas salitreiras, deixaram gravados nos arquivos da memória os ingentes esforços por sobreviver nas paragens mais inóspitas do mundo.
Naquelas imensas extensões desérticas de sol queimante, remoinhos de vento e “camanchaca”(2) que é a Pampa salitreira...

Eu pertenço a outra categoria
E apenas um homem sou,
De carne e osso
Por isso, se espancarem meu irmão
Com o que tiver à mão eu o defendo.

E se observarem a Pampa e a imaginarem em tempos da indústria do salitre, verão à mulher e ao fogão murcho, ao operário sem cara, à criança triste.

Se contemplam a Pampa e seus recantos, verão as estiagens do silêncio. E se observarem a Pampa como fora sentirão, destroçados, os lamentos.

“O Sol em deserto grande
E o sal que os queimava”

De uma a outra oficina, como rajadas, ouvia-se os protestos dos operários. De uma a outra oficina, os senhores, o rosto indiferente ou em desprezo.

O que fazer então? O quê, se ninguém escuta? Irmão com irmão perguntavam. É justo o pedido e é tão pouco. Teremos que perder as esperanças?

E assim, com o amor e o sofrimento, foram se juntando vontades. Em um só lugar compreenderiam! Havia que descer ao Porto Grande.

“Não há que duvidar, confia já vais ver
Porque em Iquique, todos vão entender.
Toma mulher, minha manta te agasalhará,
Ponha a criancinha em braços, não chorará.
Não chorará, confie, ele vai sorrir,
Contarás-lhe uma história, ele vai dormir”
(...)
“Dizem que Iquique é grande, como um campo de sal,
Que há muitas casas lindas, você gostará, gostará,
Confia como que Deus existe
Lá no porto tudo vai ser melhor”

E vão descendo ansiosos e vão chegando os milhares da Pampa, os postergados. Não mendigavam nada, apenas queriam respostas ao que pediram. Resposta limpa aos grêmios. E solidarizaram os carpinteiros, os das oficinas mecânicas, os carreteiros, os pintores e alfaiates, os jornaleiros, barqueiros, pedreiros e padeiros, os encanadores e vendedores, os carregadores. Grêmios de apoio justo, de gente pobre.
Os senhores de Iquique tinham medo, era muito pedir ver tanto operário: o “pampino” não era homem cabal, podia ser ladrão ou assassinar.
Enquanto isso as casas eram fechadas. Olhavam somente a través das janelas. O comércio fechou também suas portas, havia que se cuidar de tanto monstro. Melhor juntá-los em algum lugar, se andavam pelas ruas, era um perigo.

“e os outros mais ricos
Não nos querem dar a cara”

O lugar ao que os levaram era uma escola vazia, e a escola se chamava... Santa Maria.
Deixaram os operários, os deixaram com sorrisos. Que esperassem! – lhes disseram – apenas uns dias.
Operário sempre é perigo, prevenir é necessário. Assim, o estado de sítio foi declarado.

“Sou operá
Sou operário pampino e sou
Tão tão vê
Tao tão velho como quem mais
E come
E começa a cantar minha voz
Com temo
Com temor de algo fatal
O que eu sin
O que eu sinto nesta ocasião
Eu terei
Eu terei que comunicar
Algo tris
Algo triste vai acontecer
Algo horrí
Algo horrível nos acontecerá”

Ninguém diga palavra, que chegará um nobre militar... um general! Ele saberá como lhes falar, com o cuidado que trata o cavalheiro... a seus lacaios. O general já chega com muita pompa... e muito bem precavido com seus soldados, as metralhadoras estão dispostas... e estrategicamente rodeiam a escola. Desde uma sacada lhes fala com dignidade, isto é o que diz o general:
De nada serve tanta comédia. Deixem de inventar tanta miséria. Não entendem seus deveres, são ignorantes! Perturbam a ordem, são meliantes! Estão contra o país, são traidores! Roubaram a pátria, são ladrões! Violaram mulheres, são indignos! Mataram soldados, são assassinos! É melhor ir embora sem protestar... mesmo que peçam e peçam... nada obterão!
Desde a escola o loiro, operário ardente responde sem vacilar, com voz valente. “O senhor, meu general não nos entende. Continuaremos esperando custe o que custar. Já não somos animais, já não rebanhos, levantaremos a mão, o punho em alto. Vamos dar novas forças com o nosso exemplo, e o futuro saberá, eu lhe prometo. E se quer ameaçar, aqui estou eu: dispare a este operário, no coração.

O general que escuta não vacila. Com raiva e gesto altaneiro lhe dispara. O primeiro disparo e a ordem pra chacina e assim começa o inferno com as descargas.

“três mil e seiscentos
Um atrás do outro
Três mis e seiscentos mataram
Um atrás do outro.
A Escola Santa Maria
Foi o extermínio
De vida que morria
Só alarido
Três mil e seiscentos olhares
Que se apagaram
Três mil e seiscentos
Operários
Assassinados.”

(...)

“Jamais o conseguirão
A terra será de todos
Também será nosso o mar
Justiça haverá para todos
E haverá também liberdade
Lutemos pelos direitos
Que todos devem ter
Lutemos pelo que é nosso
De ninguém mais há de ser”

(...)

“Unamo-nos como irmãos
Que ninguém nos vencerá
Se quiserem nos escravizar,
Jamais o conseguirão”


(1) Pampino: Pessoa que trabalha na pampa salitreira
(2) Camanchaca: névoa espessa e baixa


Obs.: O vídeo reúne trechos de músicas da Cantata a Santa Maria de Iquique do grupo Quilapayún e do relato de Luis Advis.


Cantata de Santa María de Iquique
Grupo Quilapayún

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV











Santa Maria das Flores Negras
Hernán Rivera Letelier

Sobre o autor






Eram as três e quarenta minutos da tarde do dia sábado 21 de dezembro - o vento do mar ainda não começava a correr em Iquique -, quando o general Roberto Silva Renard, desde a altura de sua cavalgadura branca abaixou o braço dando a ordem de fogo.
No mesmo instante, o pelotão do O’Higgins fez sua primeira descarga em direção ao terraço da escola onde, de pé frente à praça, rodeados de bandeiras e estandartes, com a atitude serena dos que sabem que lutam por algo justo, permaneciam uns trinta dirigentes do Comitê Central. À descarga de fuzilaria vários deles caíram sobre o tumulto que cobria a porta e as grades do pátio exterior. Em seguida, o general ordenou ao pelotão da marinha situado na esquina da rua Latorre, que disparasse justamente à fachada do local onde se amontoava a maioria dos grevistas mais afogueados e buliçosos. Era tal a confiança nossa e a de todas as pessoas a respeito de que o Exército chileno jamais cometeria o crime de disparar suas armas sobre compatriotas indefesos que enquanto os da frente, muitos com cigarros acesos nos lábios, caíam perfurados por tiros dos fuzileiros, os de atrás gritavam a viva voz, convencidos sinceramente de suas palavras, que não havia de que se assustar, irmãozinhos, que era apenas balas de festim. No entanto, os que vimos cair crivados junto a nós aos primeiros companheiros de trabalho, os amigos da vida toda ou nossos próprios familiares, e que espantados pela visão tentamos nos debandar em levas em direção às ruas laterais, fomos obrigados pela tropa que rodeava o lugar, a ponta de lança e disparo de fuzis, a voltar ao centro da praça onde a confusão era infernal. Mas as descargas dos fuzileiros eram apenas o prefácio, o prelúdio da sinfonia terrível que as metralhadoras, com pontaria fixa à sacada do Comitê Central, começaram a entoar logo no anfiteatro da Praça Montt. À varredura de seu martelar atordoante, outros tantos corpos de dirigentes caíram sobre a multidão produzindo um turbilhão tal que, de repente, sem ter aonde correr, nos vimos empurrados em torrente ao mesmo lugar onde estavam situados esses trambolhos do demônio vomitando seus sonâmbulos clarões de morte. Logo de uma segunda varredura à sacada central, as metralhadoras modificaram sua altura, baixaram suas bocas de fogo em direção à massa de gente que ultrapassava a fachada da escola e, sem nenhuma comiseração por crianças e mulheres, começaram a rugir seu tiroteio mortal. Uma chacina inconcebível e as pessoas que haviam ficado a ver em que terminava esse protesto de pampeiros e vendedoras ambulantes que, certas como todo mundo de que nunca chegariam a disparar, ficaram instaladas tranqüilamente na praça oferecendo suas mercadorias. O sangue das primeiras dezenas de mortos cerceados pela metralha começou a formar vermelhas poças fumegantes que sumiam escuramente na terra e impregnavam o ar de um denso odor ardente. Como já não cabiam dúvidas de que se tratava de uma matança sem quartel, as pessoas começaram a gritar aflitas que içassem bandeiras brancas, irmãozinhos, que levantassem bandeiras brancas caralho. E várias dezenas de panos, lenços, aventais de trabalho, alguns já manchados de sangue, emergiram entre a multidão, agitados desesperadamente como sinais de rendição. Mas no fragor e na confusão do massacre ninguém ligou pra eles e as metralhadoras continuaram vomitando seu mortífero fogo implacável.
Frente às ondas de morte, certamente o general havia-se abstraído nessa espécie de fascinação que se produz ao contemplar as labaredas das chamas de uma fogueira. Em quanto o martelar ensurdecedor das metralhadoras continuava ressoando como dentro da caixa de nossos próprios crânios, a fuzilaria não deixava de disparar fogo nutrido em direção ao povo atocaiado na carpa do circo e sobre os que tentávamos fugir da linha de fogo. A ár dua luz do dia e o pó levantado pelo turbilhão da multidão enlouquecida faziam aparecer todo o quadro como uma alucinante cena de horror. Envolvidos em uma confusão espantosa, sem encontrar por onde nem para onde fugir das balas, nos recolhemos de novo em direção às portas da escola onde se produziu um impressionante redemoinho humano, pois ao mesmo tempo os milhares de grevistas apinhados no primeiro pátio tentavam escapar em lufadas da ratoeira mortal em que se havia convertido.

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