21 sept. 2009

La Ciencia en Flores




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A ciência em Flores
Alejandro Dolina

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Os Refutadores de Lendas sustentaram sempre que toda a Natureza pode-se expressar em termos matemáticos. O pouco que resta fora, não existe.
Assim, esta orientação racionalista se esforçou, usando cifras, vetores e logaritmos, em representar coisas tais como o tango “El Entrerriano” ou os ciúmes das namoradas da Rua Artigas.
Quando fracassavam, simplesmente declaravam superstição o que não conseguiam enquadrar em suas estruturas científicas.
Existia um minucioso catálogo de coisas inexistentes que se atualizava a cada ano. Lá figuravam os sonhos, as esperanças, o bicho papão, a alma, o ornitorrinco, o quatorze de corações, o Anjo Cinzento de Flores, o gol de Ernesto Grillo contra os ingleses, o pôquer servido e a angustia.
Outra publicação venerada foi o desmesurado livro “Um Amor assim tão Grande”, resultado do desejo de medir tudo. Nesse trabalho não somente se outorgam valores numéricos a sabores, aromas e formas, senão também as sensações espirituais mais sutis.
Ao longo de cem capítulos se estabelece a quantidade de adrenalina que produz um individuo antes de ser vacinado, o volume que alcançam as lágrimas de uma mãe ao longo de sua vida, a quantidade de cera que trazem em seus ouvidos o conjunto de habitantes da cidade de Buenos Aires (suficiente, ao parecer, para lustrar todos os andares do edifício de Obras Sanitárias), e a energia que consome um suspiro.
Alguns dados produzem indignação nas almas simples: para essa gente a novela Madame Bovary consiste em certa mistura de meio quilo de papel e um quarto litro de tinta. Os elementos químicos que compõem ao homem são descritos pontualmente com seu preço nas farmácias do lugar. Deste modo chega-se à conclusão de que é mais barato um senhor robusto do que um abajur.
Não faz falta indicar o grande sucesso obtido por esta curiosa forma de avaliar o universo. Constantemente podemos ouvir no rádio as declarações de brilhantes esportistas que manifestam se encontrarem em setenta e cinco por cento, sabe Deus de quê. Os rapazes preparam tabelas de posições nas que dão a entender que querem primeiro a sua mãe, depois seu pai e em terceiro lugar à sua avó. E em quarto… de longe… o tio Juliano. Os boletins de notas não são outra coisa que a versão escolar do pensamento dos Refutadores.
A pesar de que a descrição da conduta de um aluno que não estudou sua lição se reduz a um redondo zero. Pelo contrario, um estudante talentoso e perseverante será premiado não com um carinho, nem com uma frase estimulante, mas sim com um dez.
Não se sabe se os Refutadores de Lendas escreviam cartas de amor, mas não seria estranho que suas meigas declarações consistissem em gráficos representativos do progresso dos seus sentimentos.
Todo este arrebato cientificista não pôde menos que causar repugnância nos Homens Sensíveis de Flores que confiavam mais na intuição do que na razão.
Como acontece sempre, os excessos racionais geram desaforadas revoltas românticas. Mas no bairro de Flores essa revolta não se manifestou unicamente a través da arte, senão que teve lugar – além disso – no terreno científico.
A Sociedade dos Científicos Sentimentais nasceu graças ao impulso do professor Aurélio C. Frascarelli, quem farto da desumanização das disciplinas científicas resolveu colocar um pouco de sangre ao frio mundo das raízes quadradas e das cotangentes.
Este pensador delirante fundou a sociedade antes citada e editou um Manual de Ingresso que nunca se soube se era um livro de texto ou uma coleção de tentativas poéticas.
As primeiras inovações do manual são modestas. Limita-se a uma redação mais emotiva dos problemas de regra de três composta. Transcreveremos um deles:
Problema 14: Doze homens tristes tropeçam em um ano com cento e seis desilusões. Não se conhecem entre si, mas sofrem de um modo parecido. Pergunto então: Quantas desilusões padecerão oito homens tristes em seis meses?
Como podem observar a única novidade consiste em substituir vegetais por desilusões e em certas declarações desnecessárias como o mutuo desconhecimento e a tristeza destes homens. Mas conforme se avança na leitura do Manual encontram-se coisas mais audazes. O problema 187 é praticamente uma novela curta. A descrição psicológica do protagonista – um comerciante pouco escrupuloso – está bastante bem lograda.
Há personagens laterais (um cunhado que procura um tesouro escondido) e uma divertida pintura típica de um armazém de bairro. A pergunta final (“a quanto deveria vender o quilo de arroz?) resulta insignificante ao lado de outras interrogantes que não estão escritas, mas sim sabiamente sugerida pelo professor Frascarelli: A vida tem sentido? Há algum propósito no Universo? Cumprimos sem sabê-lo com algum plano divino ou diabólico?
A partir da metade do livro, o autor começa a tomar partido arbitrariamente em árduas questões matemáticas. Paralelamente se incorporam julgamentos éticos e estéticos na explicação de teoremas e postulados. Fala-se então de paralelepípedos malandros, de esferas traidoras, de ângulos tediosos e chega a se dizer que o trapezóide é uma figura que não merece ser tomada a sério.
As questões biológicas são no Manual de Ingresso verdadeiras fantasias. A vida do paramécio é um conto de terror e Frascarelli chega a afirmar que as amebas são muito guardiães e fiéis aos seus amos.
A atividade dos Científicos Sentimentais não se reduzia à difusão do Manual. Nos anos dourados do bairro de Flores, muitos mestres românticos deram aula em uma academia particular da Rua Condarco.
Os alunos padeciam da mesma loucura dos professores. Cada vez que se realizava algum experimento no gabinete de química, os jovens saíam correndo aterrorizados, enquanto gritavam “Coisa de Bruxaria” ou “o Diabo anda solto”.
O próprio Frascarelli dirigia um grupo de investigação cujos métodos provocavam o escândalo dos Refutadores. Acreditavam, por exemplo, na busca do acaso. Este critério podia ser escrito assim: sabendo que muitos grandes descobrimentos se realizaram por acaso, parece uma boa idéia dissimular o verdadeiro propósito da investigação. Assim, quando se quer encontrar uma estrela, busca-se um micróbio. Os resultados não foram muito espetaculares, se bem Frascarelli se jactava de ter encontrado um específico que combatia o mau hálito enquanto procurava a pedra filosofal.
Em ocasiões, os científicos sonhadores acudiam à busca empírica e tomavam frascos de loções brancas, para ver o que acontecia. Estas experiências se anotavam num caderno que sobreviveu à Sociedade e no que se refere a mais de mil e quinhentas loucuras, que vão desde comer pólvora até se atirar a caída livre desde diferentes alturas para estabelecer os danos físicos e morais que, além dos quatro metros, acostumavam se traduzir simplesmente em morte.
Há que dizer que, mesmo que seus sucessos foram pequenos, os propósitos da Sociedade não tinham limites. Durante anos tentaram fazer algum milagre. Buscaram a esmeralda que cura todas as doenças, o elixir da eterna juventude, o pó de Pirlimpimpim, o xarope do amor eterno e a chave da sabedoria. Discutiram sobre a quadratura do círculo e a imortalidade do caranguejo e tentaram voltar ao passado e visitar o futuro.
Todos sabem que no bairro do Anjo Cinzento se destilava o vinho do esquecimento e o licor da recordação. Também são conhecidos perfeitamente seus efeitos e propriedades. Ao parecer, o que matava era a mistura.
Alguns mentirosos pretendem que estas maravilhas foram criadas pelos Científicos Sentimentais. Nada mais falso. O vinho foi obra dos Amigos do Esquecimento, um clube que propunha a abolição do passado. E o licor é – sem dúvidas – um achado de Manuel Mandeb, o polígrafo de Flores.
Tal como é fácil suspeitar, os científicos românticos foram derrotados pela prédica incessante dos Refutadores de Lendas.
Hoje todo mundo rende culto à Ciência Pura. E existe um ilustre paradoxo: os Refutadores não fizeram mais que substituir as velhas lendas por outras mais novas, muito piores.

Os arquitetos razoáveis poderão duvidar da existência da alma, mas assinarão qualquer teoria sobre o átomo, os nêutrons e prótons, com a maior alegria.
Não importa se entendem estas teorias. Na verdade – como diz Sábato – o pensamento científico parece ter maior poder quanto menos compreendido é. Por isso se costuma dizer:
- Que bem que ele fala! Não entendo nem uma só de suas palavras.
Quando um racionalista se torna supersticioso, não há quem lhe ganhe. Tudo parece indicar que o futuro pertence aos Refutadores de Lendas. Talvez por isso os membros dessa entidade – a única que resta das que existiram nos anos dourados – se mostram tão otimistas com relação ao que virá.
Todos os adoradores do progresso nos pintam um porvir cheio de calçadas móveis que nos evitarão o esforço de caminhar, com máquinas invictas, com rios domados, e veículos cada vez mais velozes.
Às almas simples, a descrição desses espantosos mecanismos lhes parece algo diabólico.
Porque neste projeto de aparelhos infalíveis e formidáveis fontes de energia não parece existir a menor preocupação por responder alguma das perguntas que o professor Frascarelli soube inserir no ser memorável problema 187.
A Sociedade dos Científicos Sentimentais era uma loucura. Mas talvez faça falta um pouco de loucura entre tanta exatidão e precisão.
Serão bons os cálculos e os teoremas inexpugnáveis, se é que se aplicam a losangos, ângulos e cubos. Mas começam a falhar quando se trata de pessoas. E talvez isto constitua a maior virtude do homem, seu toque divino. O último dos malandros de Flores é mais interessante do que uma estrela, somente porque seu comportamento é imprevisível.
Nada isto significa que devamos renunciar à ciência e seu arsenal.
Que continuem inventando liquidificadores e tônicos contra o catarro. Dois mais dois é quatro. Os Refutadores de Lendas têm razão. Mas nada mais do que isso: razão.
E isso a mim não me basta.



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