21 sept. 2009

Pactos diabólicos en Flores



Pactos diabólicos em Flores
Alejandro Dolina

Os Homens Sábios asseguram que nos velhos tempos, o demônio e seus subalternos passeavam com freqüência pelo bairro de Flores. Depois do anoitecer, na praça e na estação, rondavam nobres e plebeus infernais.
Asmodeo, inspirador do jogo, visitava os antros.
Baal- Fagor auspiciava inventos e descobrimentos perversos.
Uzza e Azael ensinavam às mulheres a se maquiarem para acender a luxúria dos homens.
E também espreitavam Astaroth, Belial, Samayaza, Yekun e Belzebu, o senhor das moscas.
O próprio Satã parava numa leiteria da Rua Artigas.
O aspecto dos demônios permitia confundi-los com cidadãos vulgares. E na verdade, isto é o que acontecia geralmente. Só os muito sagazes alcançavam a vislumbrar os sinais que denunciam ao que vem da escuridão: a elegância em exageração, os sapatos reluzentes, o anel no dedinho, o relógio de ouro, uma unha longa e afiada, um papelzinho na abotoadura do colarinho.
Suspeita-se que o propósito daquelas presenças era concretizar os pactos diabólicos.
Manuel Mandeb jurava ter visto um carro de noite, conduzido pelo Coisa Ruim. O polígrafo de Flores assustava as crianças imitando o refrão:
- Almas... compro almas... chegou a tentação, dona...
O músico Ives Castagnino mostrava um contrato de pragmática imprimido na gráfica do Averno. Lá se estabeleciam as condições gerais do pacto e as obrigações do aspirante que eram treze.

1) Renegar de Deus
2) Blasfemar continuamente
3) Adorar o diabo
4) Usar qualquer meio para não procriar
5) Jurar em nome do diabo
6) Comer carne
7) Imaginar que tem comércio carnal com o diabo
8) Levar sempre consigo a imagem do diabo.
9) Lavar a cara e pentear de quatro em quatro dias
10) Tomar banho a cada quarenta e dois dias
11) Mudar de roupa a cada cinqüenta e sete dias
12) Barbear a cada noventa e um dias
13) Não cortar nem limpara as unhas jamais e comer a cada quatro horas quatro dentes de alho.

Aceitar um pacto com o demônio significava sempre a entrega da alma.
Suspeita-se que em Flores algumas pessoas foram efetivamente tentadas e alcançaram a estampar assinaturas sangrentas para legalizar a sua perdição.
O advogado Antônio B. Ávila foi acusado muitas vezes de facilitar seu escritório e os papéis carimbados para estes convênios abomináveis. Se bem a venda de almas se mantinha no maior segredo, chegaram a nós os nomes e histórias de alguns condenados por própria vontade.
Não se trata – confessemos – de casos ilustres, como o do doutor Fausto, o padre Urbain Grandier e o pintor bávaro Christoph Haizmann. Mas vale a pena conhecer estes modestos contratos infernais, nem que seja para aprender a esquivar os enganos do Adversário.


O ACORDEONISTA ANSELMO GRACIANI
Os músicos que pactuam com o diabo, alcançam sempre uma dimensão genial. Não acontecia assim com Anselmo Graciani. Sua exigência frente a Lúcifer foi poder tocar como desejava e sonhava, e os anelos musicais de Graciani eram vulgares. É verdade que despachava a variação de Canário em Paris com os olhos fechados. Mas, além dos floreios acrobáticos, seu estilo era banal e relaxante, atacado por desnecessários enfeites de aniversário.
Alcançou sucesso e renome em certos ambientes. Ives Castagnino chegou a tocar em sua orquestra e aprendeu a odiá-lo.
Dizem as más línguas que Graciani pagou o dom recebido tocando eternamente no Tártaro, para suplicio – ou desfrute – dos condenados.

DIÁLOGO ENTRE ASMODEO E O RUSSO SALZMAN
Asmodeo: Sou Asmodeo, inspirador de jogadores e dono de todas as fichas do mundo. Conheço de memória todas as mãos que se repartiram na história dos baralhos. Também conheço as que se repartirão no futuro. Os dados e as roletas me obedecem. Minha cara está em todos os naipes. E possuo a cifra secreta e fatal que somarão todos os seus pôqueres quando chegar o fim da sua vida.
Salzman: Não quer jogar um baralho comigo?
Asmodeo: Não, Salzman. Venho te oferecer o triunfo perpétuo. Somente com me adorar ganharás qualquer jogo.
Salzman: Não sei se quero ganhar
Asmodeo: Imbecil! Por acaso quer perder?
Salzman: Não, também não quero perder
Asmodeo: Então quer o quê?
Salzman: Jogar. Quero jogar, mestre... joguemos uma partida.


RUBEN GARMENDIA, O BEIJA-FLOR
Não parecia mau negócio o de Garmendia. Garantiram-lhe o amor de todas as mulheres. O tormento eterno era, sem dúvidas, um preço razoável. Todos o recordam em Flores passeando com as mulheres mais belas da cidade.
Segundo contam, as moças o seguiam pela rua. Nos botecos, se aproximavam à sua mesa para se oferecerem redondamente. Muitas vezes devia se atirar dos ônibus, fugindo do ardor das passageiras. Seus amigos o abandonaram temerosos de que seduzisse suas namoradas.
Irma Joana Inês da Cruz sentenciou que o amor é como o sal: faz mal sua falta e seu excesso.
Garmendia suportou como ninguém a segunda desdita.
Suas amantes não se resignavam à sua ausência e se apareciam em sua casa chorando e atirando pedras nas janelas. Em suas últimas épocas era visto perseguido por multidões de damas sem consolo que puxavam seu paletó.
Para completar a sua desventura, se apaixonou de uma vizinha e já não precisou da paixão das outras mulheres. Soube, além disso, que a moça o amava desde sempre, desde antes do pacto.
Compreendeu então que Satã é um trapaceiro.
Sabe-se que tentou dissolver o vínculo, mas é pouco provável que tenha conseguido.
Um marido ciumento o assassinou um dia 25 de maio.

O HOMEM QUE ERA, SEM SABÊ-LO, O DIABO
Um cavalheiro da Rua Caracas resolveu negociar a sua alma. Seguindo os rituais alcançou a convocar a Astaroth, membro da nobreza infernal.
- Desejo vender a minha alma ao diabo – declarou
- Não será possível – respondeu Astaroth
- Por quê?
- Porque você é o diabo.

O PEQUENO PACTO DE MANUEL MANDEB
Não foi fácil ao diabo tentar Manuel Mandeb. Para começar, cada vez que se aparecia, o homem continuava correndo sem dar tempo a apresentações nem propostas. Um dia, disfarçado de ferroviário, conseguiu captar a confiança do polígrafo e finalmente lhe propôs o pacto de sempre.
- Na verdade eu gostaria de obter o amor de uma certa senhorita. Mas não creio que valha uma alma. É de escassa estatura.
- Posso lhe dar esse amor e também riquezas e louvores, para completar a diferença.
- Tenho uma idéia melhor – gritou Mandeb. – Conceda-me esse amor. Em troca eu cometerei quatro iniqüidades, que talvez sejam suficientes para me condenar. Discutiram durante longo tempo. Satanás aceitou sem entusiasmo o pequeno pacto, que assinou com tinta comum. As quatro iniqüidades foram estabelecidas por escrito e eram estas:
1) um latrocínio.
2) uma blasfêmia
3) uma traição
4) a quarta iniqüidade foi identificada pelo propósito do pacto. Fazer-se amar por alguém e não dar a alma em troca é, certamente, uma canalhada.
A força de generosidades e arrependimentos, Mandeb foi emparelhando o peso de seus pecados, até ficar em condições de se salvar do inferno... ajustadamente.


O HOMEM QUE PEDIA DEMAIS
Satanás: O que pedes em troca de tua alma?
Homem: Exijo riquezas, posses, louvores e distinções... e também juventude, poder, força e saúde... exijo sabedoria, gênio, prudência... e também renome, fama, gloria e boa sorte... e amores, prazeres, sensações... dará-me tudo isso?
Satanás: Não te darei nada.
Homem: Então não terás a minha alma
Satanás: A tua alma já é minha (desaparece)

Alguns relatos do bairro mostram evidência de posses diabólicas. Sempre se suspeitou dos cantores de jazz, porque tinham a possibilidade de falar um idioma que desconheciam. Jorge Allen se jactava de ter uma alma inóspita e jurava que vários demônios tinham tentado usurpá-la sem agüentar mais de meia hora.
Também se falava de íncubos e súcubos que mantinham amores com pessoas desprevenidas.
Papini sustentava a impossibilidade dos contratos infernais. O diabo – dizia – não precisa de complicadas cláusulas para capturar almas. E cabe supor que um homem tão estúpido que renuncie ao céu em troca de alguns anos de fortuna já está perdido antes de assinar nada.
A mim parece adivinhar que estamos frente a uma alegoria.
Talvez não existam as cruentas rubricas nem os rituais. Mas é possível que algumas de nossas condutas sejam – em segredo – a subscrição de um acordo. Talvez muitos de nós tenhamos vendido a nossa alma ao diabo, ao preço miserável de nos sentirmos satisfeitos de nossa integridade.
Acho que hoje – como então – os demônios andam por perto. Já não têm, para nossa desgraça, o horrível aspecto que antigamente dava certa lealdade a sua malevolência. Agora aparecem amáveis e sorridentes, quando não angelicais. É difícil, muito difícil, reconhecer o diabo, adivinhar de que modo assinamos e imaginar que classe de inferno nos espera.
Gostaria de pensar que as almas puras alcançam a perceber uns pálidos sinais. E assim como muitos pactuam sem sabê-lo, outros sem sabê-lo não pactuam.
O céu nos proteja dos demônios, de seus empregados, de suas vítimas e dos malvados que vivem convencidos de sua bondade.




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