26 sept. 2009

Leyenda del volador de Flores

Lenda do voador de Flores
Alejandro Dolina




Quase todos os homens sensíveis de Flores conheciam Luciano, o voador. Costumava atender uma banca de jornal na esquina de Bocayá com a Avenida. Seus apologistas asseguram que levantava apostas do jogo do bicho, coisa que não consta para nada ao compilador destas histórias. De resto, a través de todos os mitos de Flores parece constante o desejo de enaltecer a lembrança dos heróis, atribuindo-lhes atividades relacionadas com o jogo. Se for verdade o que se conta, Luciano voava. Suas escassas fotografias o mostram leve e magro, mas carente de asas. Uma delas, que costuma ser usada como prova do seu dom, o registra ao lado direito de um grupo numeroso e seus pés aparecem no ar, a uns escassos vinte centímetros do chão. Os cépticos atribuem este efeito a um truque fotográfico ou a um pequeno pulo oportuno.
No entanto, a tradição oral de Flores insiste em recordar os vôos de Luciano. Os mais velhos asseguram que, quando era uma criança, despendurava as pipas que ficavam embaraçadas nas árvores e recobravam as bolas que caiam nos tetos da vizinhança. Já mais velho, preferiu sempre vôos noturnos. Parece que o céu sustenta melhor de noite e não se corre o risco de chamar a atenção dos bobalhões.
Faz-se a exceção nos dias de chuva ou granizo. Luciano prescindia dos ônibus e taxímetros. Uma pequena viagem ao centro lhe ocupava apenas dez minutos. Costumava aterrissar em terraços solitários e descer pelo elevador para evitar o escândalo. Sendo voador, Luciano era discreto. Conheceu – dizem por aí – o segredo de todos os campanários de Flores, cruzou mil vezes com as bruxas nuas que sobrevoam Belgrano e cumprimentou os anjos ociosos que se deixam levar pelo vento.
Seus inimigos o acusavam de roubar figos e velocípedes, para não falar das lâmpadas das luminárias públicas. Os aviões lhe produziam terror, desde um dia em que passeando por El Palomar, um ardo Avro Lincoln quase lhe arranca a cabeça.

Manuel Mandeb foi o principal fornecedor de anedotas de Luciano. O pensador árabe conta – por exemplo – as desagradáveis conseqüências que padeceu por causa de sua ignorância no uso da bússola e da posição dos astros. Assim, nos dizem que uma noite que voava em direção ao Estádio de Vélez Sársfield com a ladina intenção de entrar de penetra, equivocou o caminho e descobriu as vertentes do rio Matanza. Encontrou lá – sustenta Mandeb – grandes populações lacustres semelhantes às que surgiram em Suíça há milênios. Tomando-o por um Deus, os inocentes habitantes o acolheram, lhe deram de beber hidromel, cederam-lhe uma jovem mais ou menos donzela e lhe obsequiaram uma parelha de galinhas e um vaso de flores, único destes objetos que ainda conserva.
Estes contos são muito suspeitos. Suspeita também é a história que fala de Luciano seguindo uma revoada de andorinhas até os trópicos ou aquela que faz referência à luta contra uma condor caipira. Quando começaram as calamidades no bairro de Flores, Luciano decidiu partir. As pombas azuis com suas penas de aço invadiram o céu do bairro e o voador sentiu medo.
Manuel Mandeb insiste em que antes de ir embora para sempre, Luciano lhe contou o segredo da sua incrível destreza. Diz Mandeb que um mágico estrangeiro lhe concedeu o dom do vôo, mas fez a seguinte recomendação: “Voarás, Luciano, mas cuida de que quem o saiba não escreva nunca a sua história. Quando alguém a leia, seu poder cessará definitivamente”
Isto explica que as façanhas de Luciano só tenham sido transmitidas em forma oral. Nenhum dos literatos de Luciano o menciona jamais. Graças a isso Luciano continuou voando até o dia de hoje, leitor ímpio, em que seus olhos curiosos o despenharam para sempre.



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