11 dic. 2009

El Corso Triste de la calle Caracas

O Bloco Triste da Rua Caracas
Alejandro Dolina




De acordo a uma difundida lenda, o Carnaval foi alguma vez uma festa popular, com pessoas fantasiadas, música, dança, brincadeiras e blocos. Na verdade, custa acreditar em semelhante coisa. Como queira que seja, a lendária gesta já morreu. No entanto, como silenciosos quartos vazios, restaram certas datas do folhetim às que a teimosia geral insiste em atribuir a condição de carnavalesca. Estes dias são usados, não já para festejar, mas sim para refletir e sentir saudades da ausência da festa. Trata-se como se vê, de um curioso destino: passar do entusiasmo à nostalgia, da paixão à meditação, da alegria à tristeza. Muitos espíritos taciturnos se comprazem com este estado das coisas e afirmam que a farra e a liberdade de outras épocas foram apenas um passo prévio e inevitável, cujo nobre fim cumpre-se agora, no exercício da lembrança.
Os Homens Sensíveis de Flores simpatizavam em certo modo com este critério. Para eles, o Carnaval não somente servia para seduzir senhoritas nas festas, mas também para pensar na passagem do tempo.
Pode-se afirmar sem cair na mentira que esta ilustre corja de malandros jamais conseguiu entender o sentido dos Carnavais.
Manuel Mandeb pensava que as pessoas ficavam contentes em virtude de algum acontecimento que todos conheciam menos ele. Seus amigos padeciam de um desconcerto do mesmo tipo.
Isto pode explicar a estranha conduta dos Homens Sensíveis nos blocos e nos bailes.
Durante um tempo se esforçavam por se sentirem alegres: dançavam, comiam lingüiça, punham máscaras, falavam com voz fininha e molhavam as damas com lança-perfume. Depois compreendiam que era tudo inútil e então iam a outros bailes, discutiam com os garçons, olhavam as orquestas, evocavam antigos carnavais e cantavam o tango “Siga o Bloco”. Já de madrugada maldiziam o Carnaval, se estacionavam nas esquinas desoladas e caçoavam dos caminhantes que voltavam às suas casas.
Mas numa tarde de verão, Manuel Mandeb teve uma inspiração genial. Teve a idéia de organizar todos os anos o Bloco Triste da Rua Caracas.
Tratava-se de uma idéia interessante: Mandeb pensava que nos carnavais vulgares todos dissimulavam a tristeza fantasiando-se de pessoas alegres. Seu projeto consistia em adotar fantasias e atitudes melancólicas para ver se atrás delas se instalava a alegria.
“Se sob o sonoro riso do palhaço se adivinha sempre uma lágrima, é possível que encontremos um sorriso se tiramos nossas caretas de vítimas”.
Se o propósito de Mandeb foi conseguir um clima de pesar, devemos dizer que conseguiu. O Bloco Triste da Rua Caracas era francamente tenebroso.
Todas as luzes estavam apagadas. Os assistentes deambulavam como sombras fingindo toda classe de sofrimentos.
Os blocos entoavam canções trágicas e tangos de Agustín Magaldi.
As fantasias eram penosas: de condenado à morte, de noiva abandonada, de jogador expulso, de devedor hipotecário, de vendedor de livros e de intoxicado.
Como o tempo, o Bloco Triste foi-se fazendo mais ambicioso e complexo.
Jorge Allen, o poeta, começou a escrever versos carnavalescos com pretensão literária.
“Se parliamo’ do destino borom bom bom... Quem conhece seu caminho? Borom bom bom... ninguém pode contra a sorte, a última carta é a da morte borom bom bom borom bom bom”
Os rapazes tristes de outros bairros se aproximaram pouco a pouco e logo circularam carroças de folhas secas e automóveis com as janelas fechadas.
No terceiro ano, constituiu-se um júri e se realizaram concursos e torneios.
Os blocos tiravam faíscas para ver qual era o mais deprimente. Os Lonjipietros da Desilusão, dos Decrépitos do Amanhã, e Faíscas de Solidão foram as agrupações mais renomadas.
As rainhas do bloco eram belíssimas, mas inacessíveis e perversas. O prêmio anual de máscara solta sempre foi ganho pelo mesmo individuo. Referimo-nos, lógico, ao célebre ator Eladio del Prado, quem não tinha rival na técnica da caracterização.
Suas primeiras fantasias foram simples. Uma noite apareceu fantasiado de escravo persa e todos se condoíam de ver suas costas surcada de chibatadas e seu corvo envarado sob o peso de enormes correntes.
Depois, suas criações foram mais complexas. Um domingo foi ciclope e na manhã seguinte revolucionou o bairro todo procurando o olho que ele tinha tirado. Foi também mendigo escocês e as pessoas choravam ao vê-lo suportar a neve de Glascow na Rua Caracas.
Contam que Del Prado, entusiasmado com seu sucesso, resolveu continuar com suas fantasias todo o ano. Dizem que sua destreza crescia junto à sua crueldade. Uma noite de inverno, os Homens Sensíveis pularam de alegria ao ver reaparecer Tonio Berardi, o moleque que morreu em Paris. Organizaram uma grande festa, e no momento em que levantavam as taças para celebrar a sua ressurreição, Del Prado tirou o avental, lavou os joelhos, voltou a pôr cara de pessoa adulta e apareceu tal qual era. O russo Salzman esteve duas semanas de cama e Jorge Allen quase ficou gago.
O útlimo Carnaval do Bloco Triste, Eladio del Prado se fantasiou para sempre de lembrança e ninguém voltou a vê-lo no bairro do Anjo Cinzento.
A comissão organizadora do Bloco logo advertiu que a criação de Mandeb tinha interessantes possibilidades econômicas. Isto resulta um pouco surpreendente se lembramos da nula capacidade dos Homens Sensíveis para os negócios. De todas formas, é um fato que durante longos anos, os rapazes do Anjo Cinzento venderam papel picado. Empregaram a conhecida técnica que enriqueceu tantos mercaderes: na primeira jornada, as bolsinhas estavam cheias de papelzinhos brilhantes e imaculados. Quando a festa terminava, varriam o chão e voltavam a embolsar os papéis. Noite a noite, o produto ia ficando sujo e envilecia, até que na morte do Carnaval, as bolsinhas estavam cheias de terra, tampinhas de cerveja, balas a meio comer e outras porcarias. Alguns nostálgicos acreditam reconhecer ainda hoje, nos bailes de Vila del Parque, restos de papel picado primogênio que se vendia no Bloco Triste.
Para contribuir à penúria da assistência, Mandeb vendia lança-perfume cheios de lágrimas que – se acreditamos nos seus detratores – falsificava com água e sal.
Os Refutadores de Lendas, em seu caráter de Comparsa Racionalista, costumavam se aproximarem da festa da Rua Caracas para comprar briga. Todos lembram seus afinados versos: “Os Refutadores senhoras, senhores, chegam com seus ritmos e seus silogismos. Os desafiamos a expor suas ilusões e a confrontá-las com nossas refutações...”

As olímpicas razões do bloco encontravam muitas vezes contundente resposta e dentro de um clima polêmico e agudo, costumavam armar formidáveis brigas que – por certo – davam brilho e renome ao Bloco Triste.
Ano a ano, os Carnavais da Rua Caracas foram ficando mais divertidos. Naturalmente, isso provocou sua decadência.
Os Homens Sensíveis de Flores, ao observar a farra, compreendiam que o projeto inicial ia caminho ao fracasso.
A sóbria melancolia dos primeiros tempos ia cedendo lugar a sorrisos satisfeitos quando não a gargalhadas sem freio.
Ah!, - lamentavam – Carnavais eram os de antes!
E então contavam anedotas dos blocos de antigamente, austeros e silenciosos, comparando-os com a insuportável algaravia que tinham frente aos olhos.
Mas na realidade, a verdadeira essência do fracasso temos que buscá-la por outros rumos.
Como já dissemos, o que procurava Mandeb e seus amigos era um resto de alegria que devia aparecer ao tirar a máscara trágica.
E a verdade é que nunca encontraram tal coisa.
Cada vez que – com toda ilusão – abandonavam suas fantasias de atormentados, encontravam debaixo novos tormentos que, para piorar, eram reais.
Por isso, compreendendo que a felicidade não estava no Carnaval e talvez em nenhum lugar, os Homens Sensíveis dissolveram para sempre o Bloco Triste da Rua Caracas.
Hoje, quando a fama dos rapazes do Anjo Cinzento já encontrou seu túmulo nos ventos da Estação de Flores há – mesmo que poucos o adivinhem – centenas de blocos tristes. E são muito mais tristes do que o da Rua Caracas, pois sua tristeza é involuntária e seu propósito é a alegria.
Talvez chegou o momento de compreender que não nascemos para certas fanfarronadas. Que riam os brasileiros. Tenhamos, isso sim, festas e reuniões populares. Mas nao deixemos de ser quem somos. Se nossa estranha condigamo nos fez compreender o sentido adverso do mundo, agrupemo-nos para nos ajudarmos amigavelmente a suportar a adversidade.
Talvez os Carnavais de antigamente, tão sonhado pelos animadores do radio, não era mais do que isso: uma reunião de gente triste que procurava consolo.



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